As isenções e os conluios

As isenções e os conluios

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA

A Câmara de Lisboa propôs a isenção de mais de um milhão e oitocentos mil euros ao Benfica em taxas devidas a construções a regularizar na zona do estádio da Luz.

É mais uma “obra” da vereação PS e sobretudo através do célebre Manuel Salgado, conhecido arquitecto do quartel dos bombeiros da Luz, zona em que parece muito envolvido, uma vez que arranjou maneira de o mesmo quartel vir a ser demolido e vendido o terreno ao grupo Espírito Santo Saúde, na altura para potenciar os negócios de outro Salgado, desta feita Ricardo Salgado, entretanto retirado da gestão pelos motivos que se sabem.

O que é mais choca neste novo negócio é que a Câmara alega que o Benfica realiza actividade desportiva e que também isenta deste tipo de taxas muitos clubes de bairro.

O futebol profissional é certamente uma actividade muito nobre, mas comparar um clube que é apenas mais uma empresa, num meio empresarial altamente competitivo, com os clubes de bairro onde os jovens e menos jovens praticam desporto de forma abnegada, com treinadores e professores que ganham valores simbólicos, quando ganham algo, é realmente chocante. Para nós, o futebol profissional é um fenómeno, vagamente desportivo, pouco interessante.

Nem pensamos no facto de ser um meio perigoso, em que claques violentas e agressivas tiraram toda a componente familiar e agradável que o futebol tinha nos anos cinquenta do século XX. O futebol é, sobretudo, um meio corrupto, em que negociatas particulares de presidentes e agentes se servem dos nomes dos clubes e da ingenuidade dos muitos adeptos para facturarem abertamente ou, na maioria das vezes, por debaixo da mesa, somas colossais obtidas com transferências cujos valores muitas vezes nem sequer são os publicados.

Os clubes de futebol não são clubes, por paradoxal que isso possa parecer. Os clubes são organizações cotadas em bolsa de valores. Isentar em mais de um milhão de euros uma empresa cotada em bolsa é uma distorção gravíssima do mercado de valores e, provavelmente, constituirá uma acção que deveria ser investigada pelos reguladores por poder ser eventualmente um crime de mercado.

Quando uma instituição pública favorece descaradamente um clube em face de toda uma concorrência, onde se encontram outras empresas e em que lutam por vantagens patrimoniais ao tentarem ter aquilo a que se chama êxito desportivo, onde o factor competitivo leal conta pouco e o factor corrupção conta muito, como se provou em diversos processos, desde o de Felgueiras até aos casos dos diversos apitos que resultaram na revelação da podridão do mundo do futebol e dos conluios que existem com o mundo da política, até aos célebres casos de Vale e Azevedo, justamente condenado, algo cheira a esturro e preocupa a comunidade.

Este é um daqueles casos em que a mulher de César, além de ter que ser séria, também deverá parecê-lo, e a Câmara de Lisboa não é propriamente uma organização muito transparente nestas questões.

Finalmente, o município de Lisboa aperta a tarraxa aos lisboetas com aumentos de taxas, com serviços cada vez mais miseráveis, com uma programação cultural hedionda, entregando a Juntas sem meios a limpeza urbana, os arranjos de passeios, os apoios sociais de miséria e os jardins apodrecidos, e tem uma política urbanística errática, virada apenas para o turista, uma política de tráfego que privilegia apenas a proibição sem manutenção, deixando radares sem manutenção e sem fiscalização, proibindo os mais pobres de circular no centro, não fiscalizando a poluição dos transportes públicos, responsáveis pela maior fatia dessa mesma poluição, inventando a cada passo novas negociatas que depois caem no esquecimento, mantendo apenas as zonas para “turista ver”, esquecendo-se de tudo o que é bairro pobre, deixando as ruas ao abandono cobertas de buracos e de montes de alcatrão que destroem os automóveis sem poupar os peões.

Uma câmara que deixou envelhecer e morrer a Lisboa dos bairros populares e que se queixa da falta de recursos e de ter uma dívida enorme não pode dar-se ao luxo de atirar para o balde do lixo um milhão e meio de euros e depois vir aumentar as contribuições dos cidadãos lisboetas, sobretudo quando esse milhão é para fazer despesas milionárias com jogadores pagos a peso de ouro e cujos contratos servem para as comissões escandalosas de presidentes, directores, agentes e treinadores.

É um escândalo sem par e uma pouca-vergonha demasiado aberrante para que os lisboetas se calem perante esta ofensa aos pobres que vivem na cidade de Lisboa e que, hoje em dia, são a maioria da sua população. São dois milhões de euros roubados dos bolsos dos idosos que vivem com pensões de miséria e que morrem ao abandono por essa cidade.

Os portugueses e os lisboetas, em particular, estão fartos dos conluios entre política e futebol. Senhores vereadores, senhor Costa, em particular, portem-se com dignidade e cumpram os mandatos para que foram eleitos.

Reparem que no Porto, apesar de o senhor Pinto da Costa estar contra Rui Rio, este foi eleito e reeleito para defender os cidadãos, apesar da popularidade do Futebol Clube do Porto. Os cidadãos sabem distinguir as coisas, e mesmo que ingenuamente acreditemos que esta seria uma medida popular, mesmo os benfiquistas percebem que esses milhões perdoados correspondem a comércios sinistros entre futebol e política.

Os cidadãos de Lisboa não são parvos, nem querem ser comidos como tal.

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