Reza o ‘Expresso’ a 1 de Outubro, na sua edição online (cito de memória): “Não deixo cair um amigo”, disse ainda o sr. Mário [qualquer coisa, pois infelizmente não retive o nome do senhor], ao explicar que é amigo da candidata “há sete anos”, com quem “manteve uma intensa relação de trabalho no Parlamento Europeu”. “Pude verificar as suas qualidades de trabalho”, acrescentou, esclarecendo que o convite para colaborar na sua candidatura surgiu “há dois anos“, quando Kristalina Georgieva colocou a hipótese de concorrer”, não tendo visto “razões para deixar de trabalhar com ela por ter aparecido um compatriota na corrida”.

Quando penso em nomes semelhantes da história de Portugal, nomes de senhores e senhoras que foram amigos de figuras estrangeiras, lembro o galego Fernão Peres de Trava e D. Tareja, essa putativa portuguesa antes de o ser. Lembro Leonor Telles, mais conhecida por “a aleivosa”, amiga de João Fernandes Andeiro. Lembro Miguel de Vasconcelos, amigo de Margarida de Sabóia, vice-rainha de Portugal. Lembro a notória amizade entre Junot e Pedro José de Almeida Portugal, valente general, apesar de ser um traidor à Pátria, marquês de Alorna, morto em batalha em Königsberg em 1813 à frente da Legião Portuguesa e que Junot classificava de “muito útil”.

Outro amigo de Junot seria ainda o notório maçon e marechal de  campo Gomes Freire de Andrade, recebido até por Napoleão, hoje com direito a nome de rua. Começou por ser partidário dos ingleses, virou a casaca depois da primeira invasão dos franceses, acabando ao seu serviço. Mais tarde conspirou contra o rei e veio a ser enforcado por traição à Pátria, pena relativamente injusta à data da sua condenação, depois de obtido o perdão real; mais justa teria sido se fosse enforcado logo após o seu regresso em 1815, depois de ter servido contra Portugal ao serviço de Napoleão. Hoje em dia, apesar de ter sido um vira-casacas e um traidor, ainda é reverenciado pelas esquerdas como um modelo e mártir da liberdade! Pamplona Corte Real, marquês de Subserra, foi outro traidor à Pátria ao serviço de Napoleão; participou, inclusivamente, na terceira invasão francesa, comandada por Massena.

Já o brigadeiro da Armada Portuguesa, Marino Miguel Franzini, apesar de ser filho de um veneziano, mal entrou em Espanha, forçado pelos franceses, como subchefe do estado-maior da legião portuguesa, desertou e regressou a Portugal, vindo a ser um reconhecido cientista e militar, falecendo em 1861. O seu nome, apesar de ser leal à Pátria, não veio a ser conhecido, ao contrário dos traidores que acabamos de citar. O general Francisco Silveira, primeiro conde de Amarante, recusou colaborar com o inimigo, demitiu-se, sublevou-se e levantou Trás-os-Montes contra os franceses, combatendo sem meios com as rijas gentes de Trás-os-Montes mas quase sem armas de fogo. Lutou ferozmente contra a segunda invasão de Soult, sob o comando de Wellesley (futuro marquês de Torres Vedras e duque de Wellington), combateu em inúmeras batalhas em que se cobriu de glória, quase ninguém se lembra do seu nome.

As comparações que podem surgir com os tempos de hoje são injustas. São injustas porque, apesar de alguns destes, e muitos outros se poderiam juntar, serem nomes de traidores, pelo menos foram, em algumas circunstâncias, merecedores de figurarem em livros de História.

Hoje em dia, o governo e o Presidente de Portugal envolvem-se numa campanha para fazer eleger António Guterres como secretário-geral da ONU. Não será bem o mesmo que dobrar o Cabo das Tormentas ou descobrir a Índia ou vencer no Passo do Cambalão ou derrotar os franceses, mas é um objectivo nacional que pode, pelo menos simbolicamente, projectar o nome de Portugal e elevar um pouco o nome do País entre as nações. Guterres não é aqui o sr. engenheiro que meteu o rabo entre as pernas e fugiu de governar o País. Guterres é um português, e esse é o único capital simbólico que detém junto de nós, facto que nos força, apesar de contrariados, a defender o seu nome e tudo fazer para que ganhe as eleições. A nossa diplomacia está envolvida e o objectivo é desígnio do País. Não se trata de um traidor ou de um renegado que tenha combatido contra Portugal ao serviço de potências estrangeiras, caso em que seria desculpável não o apoiar.

No entanto, existe um sr. Mário nos corredores europeus que apoia uma tal de sr.a Cristalina, que é uma espécie de búlgara. A razão é que essa sr.a Cristalina é amiga do sr. Mário há sete anos e amigos não se deixam cair. O sr. Mário está no seu direito, e nós também temos direito a ter uma opinião.

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