Linha do Douro

Linha do Douro

Ao contrário da linha do Oeste, abordada na última edição, a linha do Douro tem a sorte de ser construída num cenário ímpar, telúrico, sendo uma obra de engenharia notável, feita ainda no século dezanove, concluída na década de oitenta. Percorre o Alto Douro Vinhateiro junto à flor das águas, com obras de arte de engenharia notáveis, no coração de uma das mais extraordinárias paisagens do mundo, protegida pela declaração de Património Universal pela UNESCO.

Infelizmente, como sempre nestas coisas de Portugal, a paisagem, o esforço dos nossos antepassados numa construção ímpar que modelou o Alto Douro, não encontra sucessores na infeliz gestão, canhestra, tacanha e acomodada das direcções da REFER e CP, mais preocupadas em fazer negociatas tipo SWAPS ou do género “Face Oculta”, com sucateiros tipo Manuel Godinho, do que em desenvolver e explorar com inteligência o incomensurável património que nós, portugueses, lhes pusemos nas mãos.

O caso da linha do Douro é um exemplo paradigmático do que afirmamos. Ao contrário da Linha do Oeste, que subsiste para sustentar autarcas e vícios privados dos responsáveis das empresas, apesar do prejuízos monstruosos que acarreta, e contra a decisão da troika que previa o seu encerramento, a linha do Douro tinha potencial para ser uma mina de ouro para as empresas ferroviárias, a par da mina de ouro que o Douro já é para os cruzeiros que vão da Régua ao Pocinho.

Se, em vez das lentas, anémicas, enfezadas, porcas e decrépitas composições a Diesel da CP que saem do Peso da Régua em direcção ao Pocinho com a frequência diária miserável de quatro ou cinco vezes, se utilizassem composições modernas, ou históricas remodeladas, confortáveis, oferecendo comodidades como bons restaurantes, acomodação de qualidade e ligação directa ao Porto, se a REFER aproveitasse as belíssimas estações e reconvertesse velhos armazéns em instalações museológicas, de restauração e hotelaria de qualidade, como acontece no Pinhão com uma loja de vinhos, ou na Régua com um bom restaurante, investindo numa linha férrea que fosse segura, digna da paisagem humana e natural do Douro e honrasse a memória dos nossos antepassados que tiveram a visão de a construir, nomeadamente na zona acima do Pinhão inacessível ao automóvel e, precisamente, a mais bela do vale do Douro, oferecendo dois serviços de qualidade: transporte rápido a quem sai do Porto e precisa de se deslocar, e acesso, a partir do Porto, aos milhões de turistas que nos próximos anos virão a uma das cidades mais procuradas da Europa, com programas bem pensados, a estrutura poderia ser explorada com consideráveis lucros e poder-se-ia mesmo considerar uma reposição da ligação a Barca d’Alva e a Espanha (Salamanca). Ligação que a secretária de Estado Ana Paula Vitorino anunciava com pompa e circunstância nos tempos socráticos de 2009. Ligação que poderia servir de motor de desenvolvimento da região, de intercâmbio com Espanha e de ainda maior fomento do turismo, deixado unicamente a alguns hotéis de luxo e alguns turismos rurais e aos omnipresentes cruzeiros do rio em que se pode comer, dormir e passear.

Deixar a linha do Douro no marasmo é mais uma amostra da falta de visão dos gestores públicos, que devem fechar os ramos podres, como o do Oeste, e canalizar recursos para o prémio de ouro do Douro.

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