Marcello Caetano versus Fernando Medina

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1990

O portuense Fernando Medina, agora e por mercê da sua ambição e sorte presidente da Câmara Municipal de Lisboa, tem-se encarregue de fazer a vida negra aos lisboetas, agora que herdou o que ele usa como trono municipal. O turismo e o Sol são as mercadorias que usa para correr com os lisboetas da sua cidade, substituindo-os por turistas.

Os preços elevadíssimos praticados no centro, os despejos para arranjar quartos para os turistas estrangeiros, as casas vendidas a preço de ouro aos franceses envelhecidos ou aos chineses ricos lembram um pensamento do gigante intelectual que foi Marcello Caetano, autor de mais de cem trabalhos de grande vulto na área do Direito e que escreveu em poucos meses o Código Administrativo, o último dos presidentes do Conselho de Ministros da segunda república. Um legalista que não teve a força para impor a sua vontade reformadora aos ultras do regime em termos políticos, mas que teve o engenho para acelerar o crescimento de Portugal, apesar da guerra, para números superiores a 10 por cento ao ano. O pensamento, proferido depois do vinte e cinco de Abril de 1974 diz:

“Sem o Ultramar estamos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade das nações ricas, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava em vésperas de se transformar numa pequena Suíça, a revolução foi o princípio do fim. Restam-nos o Sol, o Turismo, a pobreza crónica, a emigração em massa e as divisas da emigração, mas só enquanto durarem. As matérias-primas vamos agora adquiri-las às potências que delas se apossaram, ao preço que os lautos vendedores houverem por bem fixar. Tal é o preço por que os Portugueses terão de pagar as suas ilusões de liberdade.”

Há outros que seguem a via fácil do Sol e do turismo, agora quase quarenta anos volvidos sobre o desaparecimento de Marcello Caetano no seu exílio no Brasil em 1980, país do qual nunca foi autorizado a regressar pela “democracia”, apesar de nunca ter sido condenado por qualquer tribunal. Bem entrados no século XXI, o modelo de desenvolvimento dos Fernandos Medinas deste país de chico-espertos assenta precisamente no turismo que não erradica a “pobreza crónica e a emigração” tão (in)felizmente enunciadas por Marcello. No caso de Marcello, a desilusão apontava estes como os únicos caminhos, no caso dos Medinas, é mesmo o interesse que lhes aponta essa solução fácil. A minha grande amargura como lisboeta é que, infelizmente, por grande falta de inteligência e inacção política de Passos Coelho, o medíocre Medina das soluções fáceis continuará a governar e a destruir sistematicamente Lisboa e a sua base populacional substituindo-a por alojamentos de curta duração para turistas de classe média baixa e de pé descalço, mesmo assim mais ricos do que os lisboetas.

E o dinheiro obtido assim servirá apenas para comprar petróleo e outras matérias-primas que as potências ricas ocidentais continuam a controlar depois de terem obtido o domínio do antigo espaço ultramarino português, esmagado pelas jogadas da guerra-fria. Se a Inglaterra manteve os seus interesses através da Commonwealth, se os EUA conseguiram obter esse domínio por força de se terem assumido como super-potência, Portugal deixou-se iludir por vãs ideias de liberdade sem dinheiro, que significa, de facto, escravidão. Escravidão da qual sairemos não pelo turismo, como bem sabia Marcello Caetano, mas pelo desenvolvimento cultural e intelectual da Nação.

Marcello Caetano, fruto da desilusão, não acreditava na viabilidade de um Portugal isolado neste canto da extrema ocidental da Europa. Alguns apostaram na União Europeia, que está a falhar estrondosamente, e erraram. Mercê dos oportunistas, que tão bem conhecia, Marcello foi profético.

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