As meninas e os meninos

As meninas e os meninos

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA
Dizem que futebol é paixão, é história, é inspiração para artistas. Por mim, nunca entendi muito bem como onze homens a correr atrás de uma bola pudessem suscitar tanto entusiasmo.

Sendo adepto do Rugby, nunca consegui perceber como um micro-toque pode levar um homem adulto com mais de oitenta quilos a cair para o chão, rebolar-se e contorcer-se de dores e fingir que está a chorar durante um quarto de hora.

Se, por acaso, o toque é perto da cara, então o teatro atinge foros de paroxismo.

Será ataque epiléptico?

Será azia galopante?

Não, é apenas jeito para a comédia a tentar convencer o árbitro, que já nem veste de preto, de que o “artista” foi alvo de uma agressão violentíssima que, pelo menos, fez cair o maxilar e arrancou oitenta dentes.

Se o árbitro não liga, lá está o menino de um metro e noventa a levantar-se e começar a correr atrás da bola para recomeçar tudo de novo.

Escrevo ao domingo, não sei se a selecção portuguesa ganhou ou perdeu com a Alemanha de Merkel. Também é-me indiferente, o que sei é que foram recebidos por Cavaco, o presidente da república, somo se fosse a embaixada dos magriços de Inglaterra, a flor da juventude portuguesa que saísse para conquistar o mundo.

Se não há exército, se não há soberania, pelo menos o Ronaldo cá está para, denodadamente, cavalgar por esse mundo fora e levantar com pundonor as cores de Portugal!

Podemos ser miseráveis, podemos ter baixa escolaridade, mas o presidente tenta apropriar-se da popularidade do futebol para capitalizar o crédito que já não tem junto da sociedade portuguesa.

Atrás de Cavaco há secretários de Estado, ministros e sátrapas menores que tentam, quais emplastros ainda mais feios, ficar de sorriso desdentado na fotografia.

Entretanto, em casa, os dirigentes do futebol tentam destituir o Figueiredo da Liga de Clubes, mas são tão tontos, ou tão garotos que, mesmo gerindo milhões e milhões nos negócios escuros e claros do futebol, não são capazes de apresentar uma lista em condições.

Quem, como eu, gosta de rugby, não pode deixar de dar gargalhadas com estes rapazolas do futebol, aprendizes de mafiosos que não passam de amadores de meia tigela.

O futebol já foi para homens de barba rija, os turcos jogavam com as cabeças dos prisioneiros de guerra, os italianos matavam-se em campo em representação das suas cidades.

Os Aztecas jogavam com as ancas e quem perdesse perdia também a vida sacrificada aos deuses, Viracoxa agradecia.

Na Inglaterra o futebol teve origens ilustres e a luta era feroz mas, à medida que o desporto se popularizou, a manha e o teatro tomaram lugar sem punição moral, social ou castigo dado pelos órgãos dirigentes.

Quando João Pinto, esse paradigma da comédia em que o futebol se tornou e dirigente federativo, se especializava em saltos para a piscina ganhando penaltis, era elogiado por uns e servia para o riso benfazejo de outros.

Mas o mundial decorre, o povo esquece e aplaude os Ronaldos e companhia, as fãs descascam-se à sua passagem, fala-se sobretudo das barbas e bigodes dos rapazes de trinta anos que se atiram para o relvado a chorar mal sentem um cabelo do adversário a roçar-lhes no peito depilado, e o país sai da crise até à derrota algures num estádio que custou o triplo do que deveria ter custado e serviu para as negociatas que vão da FIFA aos governantes, empresários e dirigentes brasileiros, como tem sido em Portugal e é igual em toda a parte.

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