Escutei na rádio, Antena 1, a missa de Domingo a partir da Igreja de S. João de Brito, em Lisboa. Fiquei estarrecido com dois aspectos. Em primeiro lugar, existe um comentador de missas, uma espécie de voz jovem mas emaciada com requintes de elevação mística beatífica, que vai tecendo comentários aos diversos momentos da Santa Missa em vez de os deixar escutar.

A missa pela rádio destina-se a quem não pode ir à Igreja, doentes, pessoas em viagem, distantes dos centros, sem meios de transporte, com dificuldades motoras; no caso desta missa de S. João de Brito, dir-se-ia que a missa era unicamente destinada a castigar os doentes e os ouvintes crentes que não puderam ir à igreja com os comentários afectados, iluminados por uma luz de suprema beatice e presunção afectada de uma fé sublime e única que enche o beato comentador e, já agora, a desafinação horrífica do “coro”.

Quando pensamos em música na missa pensamos em Mozart, em Josquin, em Schubert, em Beethoven, até no luterano Bach que escreveu a colossal missa católica em Si menor, pensamos em Dvorjak, em Bruckner, pensamos numa música de uma qualidade ímpar, iluminada pela verdadeira Fé e pelo máximo esforço do génio humano de compositores que colocaram na Missa, agora com M grande, todas as suas energias criativas, porque a Missa, vista por estes homens, transcende o humano e torna-se Sobrenatural. As criações musicais para a Missa têm, em grande parte, o toque do Sobrenatural.

Não é o caso do “coro” de S João de Brito, em Lisboa. Já não bastava o beato comentador de missas com voz afectada a tapar a missa: tínhamos o coro infernal, desafinado, fora de tom, berrante, cada um para seu lado, mal captado pelos microfones, que cantava “músicas” miseráveis de per se, mas que, para além disso, estropiava sem dó nem piedade. Note-se que, no caso da Missa, é necessário piedade. Piedade pela congregação, piedade pelo ouvinte da Rádio. Aquilo que poderia ajudar o crente a elevar-se, a chegar ao Céu pelo acto da Comunhão, pelo acto da Partilha, pela Eucaristia, pela Oração, torna-se um momento digno do purgatório, uma vez que, por muita caridade pelo esforço denodado dos paroquianos que cumprem a sua obrigação dominical de tentar fazer umas cantorias, não os devo comparar ao inferno… um inferno em que me colocaram enquanto ouvinte da rádio.

Ouvir a missa nestas circunstâncias não é um acto de Fé, é um acto de penitência, de sacrifício. Perceber-se-ia a intenção da hierarquia da igreja de sujeitar o auditório a um castigo divino, sem par, por não ter ido à missa in loco e por ter cometido o pecado de ficar em casa a tentar escutar a rádio; mas não parece ser o caso.

O caso é que o cuidado com a música na igreja é pouco. Os padres não têm formação, seria melhor mandar calar aquela gente toda e fazer a missa sem cantorias do que escutar tal martírio, ou mandar ensaiar o coro por gente com maior formação. Nem quando se tem a responsabilidade de dar a todo o País, pela rádio, uma missa com cuidado, uma vez por semana, se escolhe um coro mais trabalhado, obras mais elevadas, compositores mais de acordo com a tradição gigantesca da igreja neste domínio.

Creio que é um pecado grave deixar a transmissão da missa a uma igreja qualquer, como S. João de Brito, em que não se cuida da liturgia em todos os seus parâmetros. Agora vou parar de escrever e vou escutar a Missa da Coroação de Mozart…

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