A propósito da edição por um semanário de um livro de Simon Sebag Montefiore, “A Corte do Czar Vermelho”, um livro excelente, como todo o trabalho notável de Montefiore, vem Francisco Louçã afirmar no ‘Expresso’:

[Francisco Louçã] sublinha que só a esquerda “foi capaz de combater o colonialismo francês na Argélia, o colonialismo português em Angola e Moçambique, as ditaduras de Portugal, Espanha e Grécia, bem como rejeitar o estalinismo e a destruição que provocou”. No debate ideológico, diz a concluir, “a esquerda que tem esse nome, tem uma força muito grande, que é simplesmente a de ter dito e ter feito, e lutar em todas as circunstâncias pelas liberdades essenciais do ser humano. As ideias fortes da esquerda são as ideias da liberdade e é isso que constitui o seu património”.

Ou seja, Francisco Louçã, na sua dogmática visão do mundo, vem afirmar que Estaline não seria de esquerda! Pior, foi a esquerda que combateu Estaline e rejeitou-o, bem como a destruição que provocou.

Quem ler Louçã e não tenha uma dimensão crítica da História, poderia até pensar que Estaline não seria de esquerda e que a “verdadeira” esquerda, a dos trotskistas, entenda-se, combateu as ditaduras, teria assim uma força muito grande, um património, nas suas próprias palavras.

Mas este parágrafo encerra demasiadas contradições. Quem combateu contra Portugal em Angola e Moçambique – Louçã esquece a Guiné, não se sabe bem porquê – foram movimentos pagos pelos russos (à mistura de chineses e americanos), herdeiros directos de Estaline, e não a meia dúzia de trotskistas que foram purgados pelo ditador na Rússia. Pior, quem apoiou directamente o regime de Angola foram os cubanos, que chegaram a enviar tropas, e não me parece que os cubanos de Fidel Castro fossem trotskistas. Por outro lado, não parece que tenha restado muita liberdade nos países em causa.

As esquerdas nunca lutaram pelas liberdades. Estaline, que para todos os efeitos era o clímax de qualquer ideia de esquerda, nunca lutou pela liberdade, lutou pelo seu poder, pelo poder da Rússia soviética e, apesar de combater o Nacional-socialismo de Hitler, substituiu na Europa de Leste um reino de terror por outro reino de terror, muito distante da liberdade apregoada por Louçã. Por outro lado, o próprio Trotsky, enquanto teve poder, nunca lutou pela liberdade, lutou isso sim pela “ditadura do proletariado” que levou a centenas de milhares de mortos, ainda no seu tempo enquanto chefe e fundador do exército vermelho, culminando o seu regime com o apogeu de Estaline, cujo reinado se deve em grande medida à meticulosa preparação de Trotsky, antes de este último cair em desgraça, bem entendido.

Quem combateu os regimes totalitários foram as esquerdas estalinistas, os partidos comunistas ortodoxos. Os chamados trotskistas nunca passaram de um punhado folclórico de barbudos desgrenhados, com a louvável excepção capilar do próprio Louça com o seu ar bem barbeado de eclesiástico e os seus dogmas proferidos com ar severo mas que, depois de analisados, são apenas uma espécie de propaganda contraditória e sem nexo.

Afirmar que as esquerdas defendem a liberdade é meter demasiada esquerda num saco muito pequeno. A não ser que Louçã esteja a elogiar os sociais-democratas. Já deve ter faltado mais…

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  • BAAL

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