Não sou Charlie Hebdo

Não sou Charlie Hebdo

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHA
Condeno completamente o massacre sobre o Charlie Hebdo, o jornal satírico que durante quarenta anos publicou caricaturas e cartoons sobre os mais variados temas.

O estilo iconoclasta do jornal era criticável, ver cenas de sexo explícito, homossexual entre o Pai, o Filho, com o Espírito Santo, não o do banco mas o Divino, em forma de triângulo espetado no ânus de Cristo não é propriamente algo que reflicta bom gosto, é mais do que isso, é fortemente ofensivo e provocador.

Cartoons do Charlie Hebdo
Cartoons do Charlie Hebdo

Ver um islamita nu, de joelhos virado para Meca, com uma estrela sobre o ânus e a legenda dizendo “Maomé, uma estrela nasceu!”, é extremamente discutível e ofensivo, mesmo para aqueles, como eu, que pensam que o Islamismo é uma simplificação dos monoteísmos existentes, uma religião fácil de entender pelos analfabetos pensado por um génio do marketing religioso, precisamente Maomé, para servir de suporte espiritual a um proselitismo violento e a uma expansão do império árabe, uma religião sem problemas filosóficos, em que Jesus, visto como profeta, não morre nem ressuscita sendo levado por Deus directamente da Cruz para o Céu, onde está junto de Alá, dando ao homem a possibilidade da poligamia, para libertar varões para a expansão militar, relegando a mulher para um lugar miserável, enfim, a mais dogmática das religiões, a mais inflexível na interpretação, o Corão é escrito directamente por Deus que se serve de Maomé apenas como instrumento, ao contrário dos Testamentos judaicos ou cristãos.

No entanto, como afirma o padre Portocarrero de Almada no Jornal i, mesmo que ofensiva, o abuso da liberdade de expressão teria de ser sempre combatido através dos meios que a sociedade civilizada põe ao dispor dos ofendidos, a lei e os tribunais, não através das balas e do assassinato.

Infelizmente, apesar dos discursos pacifistas de alguns chefes religiosos, e saúdo o papel moderado do Xeque David Munir da mesquita de Lisboa, a faceta medieval, bárbara do Islão é uma das leituras possíveis do livro, uma vez que a blasfémia seria punida com a morte e é assim que, por exemplo, no Paquistão qualquer pessoa que diga mal de Maomé ou do Corão poderá pagar com a morte, entretanto reintroduzida no país.

Entramos assim num choque civilizacional, em que perguntamos: seriam os senhores cartoonistas do Charlie Hebdo culpados, de certa forma, da sua morte? A única resposta civilizada, humanista e ética é: não.

Os culpados pela sua morte foram os chefes religiosos que incitam à violência em mesquitas e inúmeras comunidades islâmicas sediadas na Europa. Os desgraçados que mataram são apenas os instrumentos de uma violência primitiva, são bandidos, a sua morte não lava em nada o crime hediondo que praticaram cujos efeitos são infinitamente superiores ao seu sacrifício.

Nessa perspectiva, o assalto ao semanário francês é um sucesso militar e psicológico sem precedentes, cem mil homens envolvidos nas operações, helicópteros, veículos de transporte de tropas, vigilância electrónica, um sem fim de meios para localizar e deter três homens com algumas armas que se compram no mercado negro por umas centenas de dólares.

Um continente fechado sobre o seu medo e, sobretudo, o pensamento de que escrever livremente é perigoso e que devemos escolher as palavras quando abordamos certos assuntos, são, provavelmente, o maior sucesso deste ataque miserável e cobarde.

A solução para este problema parece-me simples e poderá limitar a violência mesmo a curto prazo. Penso que a resposta correcta dos serviços secretos (e a raison d’État é a principal razão de existência dos serviços secretos, filosoficamente assentes no facto de que travamos uma guerra não declarada) seria eliminar cirurgicamente os imãs, xeques, e outros chefes religiosos que apelam à violência, geralmente cobardes, incapazes de pegar em armas mas capazes de usar os jovens, incluindo crianças, em nome dos seus inconfessáveis interesses.

A única linguagem que estes senhores conhecem é a da violência e, abrigados no conforto das suas mesquitas, servidos nas suas mordomias pelas suas pobres comunidades, certamente pensariam muito bem antes de mandar para o matadouro os jovens das suas comunidades se a tolerância ocidental pela sua incitação ao ódio fosse radicalmente punida.

Somos todos Charlie Hebdo? Não, não somos, considero muito do que este jornal publicava como ofensivo, estúpido e de mau gosto. Nunca poderei afirmar que sou aquele esterco; no entanto, serei Charlie Hebdo, se isso for entendido como uma afirmação metafórica de que defendo a liberdade de expressão.

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  • Nuno Santos

    Estou positivamente impressionado com este Jornal. Uma autêntica lufada de ar fresco no panorama muito obscuro e medíocre da imprensa nacional. Em relação ao “movimento” jesuischarlie concordo a 100% com o que o senhor Silveira da Cunha aqui escreveu. Recordo-me que quando começou o boom até disse para mim próprio em tom de brincadeira “Eu não sou Charile”, quando percebi que se tratava de um circo mediático, uma moda. E também porque tinha lido algures que esse jornal do Charlie tinha temas tabu, nomeadamente, quando um dos seus membros fez uma caricatura sobre o judaísmo e Israel. Pelos visto o Charlie na altura não gostou, tendo esse membro sido expulso do jornal.

    Em relação à liberdade de expressão sobre temas religiosos sou da opinião que se caricaturamos uma religião temos de conseguir caricaturar todas as outras, caso contrário seremos apenas mais uma entidade que só ataca uma religião, tomando partido doutras. Sendo esse o caso não faz sentido falar-se em liberdade de expressão.