Notas sobre Universidades, Ciência e Tecnologia

Notas sobre Universidades, Ciência e Tecnologia

0 1014

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA

Manuel Silveira da Cunha

Impõe-se uma nota sobre o meu último artigo sobre Sampaio da Nóvoa e a agregação de Saldanha Sanches. Parece que o antigo reitor fez diligências para adiar as provas de forma a não permitir que o soez método de votação anónima já não fosse aplicado, assim o afirma Isabel do Carmo que na mesma altura prestou o mesmo tipo de provas na Faculdade de Medicina.

Recordo que estas provas são feitas, actualmente, depois da licenciatura, mestrado e doutoramento e habilitam o candidato a ser catedrático. O antigo reitor tentou nos bastidores adiar as provas, falando directamente com os candidatos que seriam sujeitos ao escrutínio dos catedráticos, de forma a o novo regulamento vir a ser usado. Tendo sido eleito em 2006, até então não tinha alterado os regulamentos, mantendo em uso um sistema sinistro e contrário aos direitos humanos e aos mais elementares princípios éticos, facto extensivo a todos os reitores e ministros desde o 25 de Abril que mantiveram este sistema até finais de 2007.

Felizmente, e apesar de não ter levantado a voz contra o chumbo de Saldanha Sanches, foi devido a alguns esforços seus que o sistema acabou por ser abolido pelo recentemente falecido Mariano Gago.

Isto leva-nos a outra questão. Mariano Gago acreditou no desenvolvimento baseado no progresso científico e do conhecimento, esse feito foi notável e coloca-o a par de outros grandes homens como Duarte Pacheco, Sidónio Paes, Fontes Pereira de Melo ou Passos Manuel, em que esquecemos barreiras ideológicas.

Foram muito escassos em dois séculos, um de quarenta em cinquenta anos, quase todos efémeros, breves nas suas vidas e na vida política activa. Felizmente, Gago esteve 12 anos como ministro da Ciência e Tecnologia, tendo depois acrescentado a pasta do Ensino Superior no tempo de José Pinto de Sousa.

Muito se deve a Gago, mas também existe uma gravíssima crítica a que não escapa: o seu modelo de desenvolvimento para a ciência assentava em bolsas efémeras de doutoramento e pós-doutoramento e em programas como o “investigador do programa ciência” com postos de cinco anos. Um sistema frágil, com pés de barro, que não poderia nunca perdurar.

Proibindo, de facto, o acesso à carreira de professor universitário, cortando o financiamento das Universidades, o sistema de ensino torna-se envelhecido, anquilosado. O sistema de bolsas requer professores para dar formação e estes, com este sistema, estão velhos, reformam-se e vão morrendo.

O sistema não se renova. Por outro lado, o sistema europeu assente na precariedade é frágil e desfaz-se à menor brisa. Se em vez de brisa tivermos um furacão destrutivo, basta um Miguel Seabra e um Nuno Crato chefiados por um ignorante básico como Passos Coelho para se destruir em pouquíssimo tempo aquilo que demorou vinte anos a construir. Sendo as bolsas temporárias, quando estas se cortam, os investigadores altamente qualificados partem para o estrangeiro.

O país teve um extraordinário desenvolvimento, mas em tempo de vacas magras esse investimento foi oferecido de borla aos países mais desenvolvidos que podem pagar aos jovens altamente qualificados, deixando em Portugal os restos, com a agravante de, quebrada a barreira de potencial da partida sempre difícil, com a posterior celebração de contratos permanentes nos países de destino, os investigadores portugueses nunca mais retornarão. A precariedade e a falta de renovação dos quadros nas Universidades é o pecado capital do gigante de pés de barro que constitui o legado de José Mariano Gago. É uma boa herança, mas assente em bases efémeras.

Foi nomeada uma pessoa sensata para substituir o nefasto Miguel Seabra na Fundação para a Ciência e Tecnologia: Maria Arménia Carrondo parece ser uma boa aposta para rectificar os erros, omissões e falta de eficiência da mesma fundação, em que a norma actual é a má qualidade e o atraso em tudo o que se propõe fazer.

Uma fundação em que o presidente se candidata a um prémio, o BIAL, em que o júri é constituído por pessoas dependentes dele próprio e dos seus serviços para efeitos de financiamento, e se demite na véspera de receber a choruda soma, diz tudo do carácter do anterior presidente da FCT.

SIMILAR ARTICLES

0 1131

0 425