O Cristianismo transporta em si a génese da sua corrosão

O Cristianismo transporta em si a génese da sua corrosão

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA
Dizem alguns filósofos, a começar por Nietzsche, que Deus está morto, que o Cristianismo como força motriz da Europa já não existe. A própria constituição da Europa baniu qualquer referência ao Cristianismo no seu texto.

Era, de certa forma, previsível. O Cristianismo europeu, apesar de graves distorções ao longo da sua história, mais fruto dos tempos e da natureza humana, sempre foi de um humanismo radical.

A igualdade entre homens, posta em prática pelos Jesuítas no Brasil perante índios e escravos africanos, o que lhes valeu perseguições e banimento, o respeito pela vida humana, que culminou, após um longo processo em que a própria Igreja Católica muito pecou, com a abolição das penas de morte em países como Portugal, o primeiro país a fazê-lo, e a tolerância e liberdade de pensamento, também com muitos acidentes de percurso, que culminaram com a aceitação das teorias da evolução e do primado da ciência sobre o mundo físico, a doutrina social da Igreja Católica, que até admite o direito à greve e a igualdade de oportunidades, foram matrizes fulcrais da Igreja Católica desde 1900.

A Igreja retirou-se do poder temporal, ou a isso foi forçada, há mais de um século, em boa hora, pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, mas a sua influência humanista perdura ainda hoje.

O Papa é uma das vozes mais respeitadas no concerto, ou desconcerto, das nações e é reconhecidamente, e constantemente nos últimos cem anos, um homem de paz e de amor, valores quase esquecidos pela civilização materialista que substituiu a visão teísta do mundo, substituindo a ordem moral e ética que presidia a um mundo ideal, ordenado pelo cristianismo, pelo Deus dinheiro.

É uma evolução, provavelmente temporária, que está contida na liberdade que a Igreja e o seu pensamento passaram a dar ao Homem a partir de 1900. Querendo apenas para si os verdadeiros crentes, os que realmente seguem os princípios de amar o próximo e de dar a outra face, a Igreja desfez-se, parcialmente, de todos os materialistas que tinham interesse na morte de Deus, libertários radicais, que renegam o próprio Criador, a quem passaram a chamar Natureza, como se a ideia teleológica não fosse a mesma.

Infelizmente nem todos saíram, ficaram muitos hipócritas e interesseiros, anunciados aliás por Schopenhauer, que se serviram do estatuto da Igreja e de serem seus membros, para interesses egoístas, eticamente reprováveis e, pior, para praticarem o crime. Parece que serão uma minoria, mas contribuíram largamente, esses elementos diabólicos, para a morte de Deus e para a descrença na sociedade.

Ao contrário do Islão, o Cristianismo, sendo uma religião de tolerância, de paz, na sua doutrina original finalmente recuperada após séculos de carnificina e cruzadas, e de liberdade, contém em si próprio a génese da corrosão que destrói o edifício ético das sociedades ocidentais modernas.

Interessa essa corrosão aos plutocratas que governam a Europa e interessa aos ingénuos libertários que não percebem que a única defesa dos desfavorecidos e dos despojados está no Jesus pendurado na Cruz, que, de braços abertos, abraça o Mundo inteiro, incluindo aqueles que não acreditam e aqueles que dele desdenham, como o mau ladrão. Sejamos como o centurião que tarde, é certo, disse, “na verdade este é o filho de Deus” e ajamos em conformidade. Assim acabará a corrupção e a miséria deste mundo.

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