Manuel Silveira da Cunha

As próximas presidenciais não são decisivas ou mesmo importantes para o futuro de Portugal. A prova manifesta desta verdade é a irrelevância do naipe de candidatos.

A direita ficou hipotecada à dinâmica estratégica de Marcelo Rebelo de Sousa que, preparando meticulosamente o terreno, nomeadamente no campo mediático que abandonou no último instante possível sem que isso o descredibilizasse, foi marcando o caminho, semeando escolhos, urtigas, pedrinhas na engrenagem ou mesmo passando rasteiras aos putativos candidatos da mesma área.

Foi assim com Rui Rio, que viu o caminho bloqueado por pedrinhas na engrenagem, ou com Santana Lopes, que Marcelo foi rasteirado descaradamente quando teve oportunidade e ensejo de fazê-lo, e que foram desistindo ao verem-se perante a avalanche de Marcelo que entra em todos os eleitorados.

Na esquerda, a situação é confrangedora. Perante Marcelo, a única escolha possível é tentar encontrar um candidato que lhe possa fazer frente e entrar pelos terrenos da direita. Havia apenas um político de carreira com esse perfil, António Guterres, com currículo muito superior ao de Marcelo e que, sendo católico e moderado, poderia fazer frente ao rolo compressor marcelista. Sem Guterres, sobra apenas Sampaio da Nóvoa, o ex-reitor da Universidade de Lisboa.

O PS de Costa nunca poderia apoiar um candidato perdedor ou uma nulidade de ética duvidosa como Maria de Belém, uma política traiçoeira que não hesitou em anunciar a sua candidatura nas costas de Costa enquanto este preparava mediaticamente as eleições legislativas e que não hesitou em trabalhar para o grupo Espírito Santo Saúde logo após ter deixado de ser ministra da mesma pasta, sem perceber, ou sem querer perceber, a mácula que isso representa na sua credibilidade. Uma senhora que um dia acordou de manhã e achou que tinha capacidade para ser Presidente. Mas se o Coelho [José Manuel] da Madeira também o pensou e obteve quatro por cento dos sufrágios, por que razão a senhora não acharia que poderia ser Presidente?

Sobravam as outras esquerdas. Teriam de escolher um candidato que servisse de publicitário das ideias de cada partido, recolhendo o maior número de votos sem, no entanto, correr o risco de cada qual, o padre despadrado e a senhora Matias, poder ir à segunda volta em lugar de Nóvoa. Comunistas e bloco de esquerda apostaram num candidato suficientemente fraco para não ir à segunda volta mas capaz de tentar ir agradando a cada sector da esquerda, de forma a roubar votos à abstenção. São uma espécie de megafones ambulantes com as máquinas partidárias atrás. Nenhum poderá desistir, pois esta campanha é também uma forma de angariar fundos através do preço que cada voto vale neste falseado jogo democrático. Uma candidatura a presidente por parte do bloco e do PC é um exercício de financiamento partidário e de publicidade gratuita, uma situação em que se ganha sempre à custa de promover nulidades a candidatos, à custa da boa-fé dos eleitores. Nenhum deles poderá desistir antes de a primeira volta decorrer, pois isso afectaria as finanças de cada partido de forma avassaladora.

Fica só em campo Sampaio da Nóvoa, derrotado à partida, sem o apoio do partido em que se colou, tendo até discursado num congresso do PS a convite de Costa. Derrotado porquê? Porque Marcelo é demasiado forte mediaticamente, porque o PS desistiu de lutar.

O dissimulado António Costa só aposta em guerras que pode ganhar, age como um verdadeiro mau político ou como um general chinês numa guerra de senhores feudais, não age por princípios ou ideais, é um pragmático, no pior sentido. Nóvoa fica assim em campo totalmente só.

Se chegar à segunda volta, o que não parece provável, mostrará verdadeiro estofo, mas a sua corrida é inglória, abandonado pelo campo que ele escolheu, incentivado no início por Costa e depois traído. Faça o resultado que fizer, Maria de Belém venceu, a mulher que, na sua perfídia, deixou Costa sem alternativas face à divisão do PS. Costa é o enorme derrotado das presidenciais. Não ir à luta é cobardia e significa uma derrota pior do que a das urnas. É a derrota da ética e da coragem política.

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