Orçamento & taxistas

Orçamento & taxistas

O orçamento foi entregue na Assembleia da República. Mais uma vez é um orçamento à medida de Portugal, pequeno, mesquinho, sem rumo, sem uma estratégia para o País. Um orçamento discutido entre as migalhas disponíveis que as esquerdas disputavam. O IMI não ataca quem deveria atacar. É surpreendente que nem PCP nem o Bloco de Esquerda consigam perceber que quem não paga imposto imobiliário são os grandes fundos, que continuam isentos. Ou estão envolvidos ou demonstram um amadorismo inacreditável. O PS sabe do assunto mas convém-lhe que não se mexa nesse vespeiro.

Vamos continuar a ter milhares de apartamentos fechados em condomínios de luxo por todo esse País. Ainda bem que vamos continuar a dispor desse recurso e que os fundos não os venderam ao desbarato, pois a crise que afectaria Portugal seria ainda mais devastadora do que a crise imobiliária do Japão. Felizmente que Bloco de Esquerda e PCP não se lembraram dessa brecha na lei. O que é seguro é que, quando despertarmos da crise, ou quando o turismo e a velhice trouxerem para Portugal uma plêiade de reformados ou de ricaços interessados em passar aqui uma temporadas, esses apartamentos, essas casas, pertença de fundos nacionais e internacionais, vão estar disponíveis e isso contribuirá, gradualmente, para um aumento da receita fiscal, à medida que esses bens entrem no mercado.

No entanto, se taxar ao nível máximo pudesse criar uma catástrofe económica, seria razoável taxar essas casas fechadas a um nível mínimo razoável. Isso motivaria a colocação das casas no mercado, por parte dos fundos, e contribuiria para evitar a especulação imobiliária e o preço excessivo que o imobiliário de luxo começa a sofrer devido à bolha turística de Lisboa e Porto. Taxar, ainda que muito pouco, e gradualmente, os fundos imobiliários, seria actuar de forma pró-activa na regulação do mercado que começa a dar sintomas especulativos, com prováveis consequências a breve trecho na inflação.

Seria importante um estudo sobre o assunto antes de actuar, um estudo rápido e bem feito. Usar os impostos como forma de governar o País seria inteligente, não como forma de castigar quem trabalhou ou quem poupou. Por outro lado, apesar de serem medidas moralistas e castigadoras da liberdade individual, o sinal social de castigar o açúcar e as bebidas alcoólicas, as munições e o tabaco são bem-vindos. Evidentemente, não passam de paliativos no orçamento, mas temos de concordar com o princípio.

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Na passada segunda-feira deu-se mais uma manifestação de taxistas. Resolveram, de forma selvagem, bloquear a Rotunda do Relógio, naquilo que mais é um crime de atentado à segurança da circulação rodoviária do que uma verdadeira manifestação. Cada largada de taxistas, como a de segunda-feira, é um tiro no pé dado pelos próprios.

A classe, ou pelo menos a sua vanguarda, é tão anedótica e tão primitiva, sem alfabetização básica, sem princípios, tão brutal nas suas acções, que todo um País se voltou contra os taxistas e a Uber ganhou esta guerra antes sequer de a travar. Os taxistas resolveram suicidar-se em público perante as câmaras de todas as televisões e saíram com o rabo entre as pernas, quando Portugal dormia alegremente sem se preocupar mais com o assunto.

Tempos melhores virão e o sector vai modernizar-se e servir melhor o público. Que venha a extinção do alvará e que passe a existir uma licença sem contingentação, isto sem aumento de preço praticado pelo actual alvará, que ronda as poucas centenas de euros, pago às câmaras municipais. O mercado ditará os números de táxis a operar e acabe-se com este sistema mafioso de traficância de licenças e alvarás que perpetua uma classe miserável. Os melhores, mais educados, com melhores carros, com mais asseio, com mais preparação para servir o público ocuparão os postos de trabalho que os dinossauros vão deixar, nomeadamente pela substituição natural devida ao envelhecimento da classe e pela automação que vai substituir motoristas por carros autónomos dentro de vinte anos no máximo.

A manifestação de segunda-feira é uma manifestação de dinossauros contra o asteróide que atingiu a Terra.

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