Os bustos da democracia

Os bustos da democracia

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA Existe um grave problema quando uma democracia, ou pelo menos algumas forças políticas que se inserem no jogo democrático, querem apagar a história. A tolerância democrática acontece ad initium, na própria aceitação da história e da cultura de um povo que se formou ao longo dos acontecimentos que forjaram a sua matriz.

Vem isto a propósito da exposição dos bustos no Parlamento. Os quatro presidentes dos regimes (não foi apenas um único regime) que vigoraram entre 1926 e 1974 teriam de ser removidos. Se juntarmos a isto o busto de Sidónio Pais, também ostracizado por socialistas, bloquistas, verdes, comunistas e referenciado negativamente até por centristas, pasme-se, sobrariam os bustos da primeira república e da república actual, as repúblicas do caos e a república da corrupção.

Poder-se-ia argumentar que os presidentes da primeira república são personagens hediondos, decadentes, estúpidos e inconsequentes e que os presidentes da actual república contribuíram todos para o estado vergonhoso em que Portugal se encontra, uma república sem soberania, vendida ao estrangeiro, com uma população decadente e infeliz e com taxas de natalidade que condenam Portugal à extinção.

Ficamos assim reduzidos a uma exposição de bustos de presidentes da república sem qualquer busto! Se quisermos apagar a história triste dos últimos cem anos resta a Portugal o vazio, o nevoeiro, sobrando apenas o Fernando Pessoa, que entre as suas centenas de heterónimos teria um presidente imaginário, talvez o presidente Rei Sidónio Pais, a quem dedicou um poema magistral. Mas, pobre Fernando, o poema não retrata, segundo os senhores que gostam de apagar personagens das fotografias, o homem real, o suposto “ditador” que tomou o poder de “forma antidemocrática”, como se a primeira república assente na ilegalização dos partidos monárquicos e no assassinato de D. Carlos fosse democrática. Esquecendo esses mesmos que o mesmo Sidónio Pais teve mais de noventa por cento dos votos no primeiro escrutínio universal de Portugal.

É a mesma tacanhez antidemocrática, que nega a própria existência do país, que leva a retirar o nome de Salazar da ponte construída no seu consulado, o mesmo sentido que leva a mudar nomes de ruas, que leva a apagar os brasões da praça do Império, o mesmo sentido que levaria a negar Portugal porque o D. Afonso Henriques se revoltou contra o legítimo soberano de Leão ou porque usava servos mal pagos!

O busto de Seguro

O busto de António José Seguro também não se aguentou muito tempo. Quatro meses depois da derrota nas europeias, devido à teimosia de um homem irrelevante e do qual no dia a seguir à derrota não resta nenhum registo, o partido socialista continua sem secretário-geral, nem tem congresso à vista. Foi substituído por um vácuo inchado produto de marketing, um homem de compromissos muito duvidosos, como o provam os negócios com o quartel dos bombeiros sapadores da Luz, obra de um arquitecto, também vereador, com o mesmo apelido Salgado do anjo caído Espírito Santo. Nos dias seguintes à vitória de Costa lá estava em evidência o joguinho político partidário do toma-lá-dá-cá, com a entrega de um terço dos lugares aos partidários da irrelevância caída, António José Seguro. É triste, mas é o Portugal em circuito fechado dos partidos. Até quando?

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