Para onde vai o chucrute?

Para onde vai o chucrute?

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Manuel Silveira da Cunha

Em tempos idos viajava-se a pé, carroça ou carruagem; o viajante, ignoto ou distinto, não tinha os confortos de hoje, de forma que tinha de se aliviar nas bermas das pouco movimentadas estradas.

Segundo Umberto Eco diz, no seu Cemitério de Praga, divertindo-se claramente com a alusão, sabia-se perfeitamente quando o viandante vindo de outras paragens, como a França ou Itália, entrava em territórios dos povos alemães.

O volume descomunal das poias que ornamentavam as bermas era prova bastante de que o povo era tedesco! Segundo Eco, os alemães alimentando-se sobretudo de doses industriais de salchichas, regadas com hectolitros de cerveja e, sobretudo, comendo barris pantagruélicos de couves fermentadas, o célebre chucrute, defecavam em proporções homéricas.

Esta constatação de facto sobre as características do povo alemão persiste até hoje. Existem dois tipos clássicos de germânicos, o boçal defecador e o intelectual angustiado e profundo. Mesmo que este também se abolete com couves, salchichas e cervejas, deve-se-lhe, e para gáudio de todos nós, grande parte da filosofia, música e literatura europeias. Schütz, Bach, Wagner, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, Goethe, Schiller, Heine, Marx, Beethoven, Mozart, Wittgenstein, Gauss, Einstein, são génios alemães e austríacos, distinção aliás bem recente.

Infelizmente, apesar de uma elite sublime, a maioria do povo alemão pertence à classe dos comedores avantajados de chucrute e defecadores implacáveis. Infelizmente, é essa casta maioritária de descendentes dos alemães que povoavam as bermas das estradas de antanho com dejectos olímpicos.

Infelizmente, a política alemã recente foi forjada precisamente pela segunda classe alemã. Uma classe de arrivistas que chegou ao poder ao arrepio das lições de Frederico o Grande, homem que falava com o confessor em latim, com a corte e ministros em francês e em alemão com o cavalo.

Foi assim que a Europa pós Adenauer e Koll tem sido marcada por uma geração de comedores de chucrute. Os ideais da solidariedade europeia têm sido substituídos pelo princípio do stock de chucrute. Desde que exista chucrute em quantidade nos estômagos alemães e, sobretudo, nas barrigas dos banqueiros alemães, a actual classe dirigente alemã está feliz.

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Não existe memória, não existe lembrança na Alemanha de como os europeus foram solidários para com a Alemanha. A Alemanha, que nos atormentou desde o império romano, responsável por um sem número de guerras, provações, extermínios e pestes, das quais as duas últimas guerras mundiais são acontecimentos demasiado recentes, continua persistindo numa senda de crescimento à custa da miséria alheia.

Dirá o leitor (eu próprio já o pensei): mas a Alemanha, trabalhadora e honesta, que soube poupar a tempo, qual formiga, apenas está a cuidar do que poupou. As cigarras mandrionas do sul da Europa, as tais cigarras cujas defecações modestas não retiravam aos cronistas de viagens de antanho exclamações de gáudio e respeito, merecem o castigo da sua vadiagem, merecem sofrer o castigo de viverem acima das suas possibilidades no Verão, que agora é do nosso descontentamento, uma vez chegado o Inverno da crise.

Analisando bem o assunto, e escutando os especialistas, sabendo que Paul Krugmann não é um perigoso comunista, chegamos à conclusão de que, mais uma vez, a Alemanha, entregue à classe do chucrute, não é inocente. A crise calhou muito bem, os empréstimos a juros agiotas serviram, sobretudo, para resgatar a banca alemã, a braços com uma esmagadora crise.

Em vez de se fazer como nos Estados Unidos, em que a impressão maciça de dinheiro serviu para salvar a finança primeiro, mas acabou por chegar à economia depois, no caso da Europa não se salvaram os Estados devedores sem exigir uma austeridade suicida, não se imprimiu dinheiro, algo que desvalorizaria a banca alemã, credora de muitos biliões de euros. Uma política que afundou a Europa na deflação e na crescente desvalorização do Euro.

No fundo, algo que se esperava desde que esta União Europeia deixou de ser uma verdadeira união mas uma espécie de colonização dos outros estados pela Alemanha, sempre à espreita da hegemonia histórica desde que as tribos germânicas tentaram destruir a civilização latina. Ou seja, desde que os comedores de chucrute tomaram conta do poder na Alemanha. O que é certo é que é tempo de reduzir o stock de chucrute nos bancos alemães.

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