A direita portuguesa continua, infelizmente, muito mal dirigida. Enquanto Assunção Cristas tenta descolar do Governo de coligação de Passos Coelho e Paulo Portas, com pouco carisma, pouca habilidade e, sobretudo, sem grande clarividência intelectual, Passos Coelho continua a fazer oposição de forma agreste, ressentida, mais para as suas próprias hostes do que para o País. É aqui que está o busílis da questão.

Focar toda a oposição num assunto absolutamente menor demonstra falta de engenho, falta de capacidade, falta de preparação política e falta de inteligência. O foco da oposição deveria ser o problema autárquico que se aproxima. Deveria ter uma definição clara do que fazer nas cidades mais importantes, Lisboa e Porto, deveria apresentar um programa real, concreto, detalhado e bem escrito para as autarquias, deveria assumir candidatos fortes, não deixar o assunto de um Carreira qualquer mas assumir com clareza e coragem o plano para conquistar as autarquias mais importantes, além da maioria do voto popular e da maioria das câmaras do País. Gastar energias a atacar um ministro, um inábil político, mas extraordinário governante em termos de eficácia que, por sua mercê, ou por circunstâncias favoráveis, conseguiu um deficit inferior a 2.1% do PIB e um crescimento do mesmo PIB da ordem dos 1.4%, é um absurdo sem sentido.

Há assuntos muito mais prementes. Passos Coelho deveria afirmar-se pela positiva, por uma intervenção afectiva junto das populações, deslocando-se, apoiando os seus candidatos autárquicos. Tendo António Costa preso a funções governativas, seria uma oportunidade de se destacar, de estabelecer contactos directos, de criar carisma. Admito que seja tarde para isso, a governação que Coelho efectuou foi muito distante de muitos sectores da população.

Passos Coelho ganhou as últimas eleições ainda sob o efeito de ser primeiro-ministro em efectividade de funções, ainda sob o efeito de o povo julgar que merecia uma oportunidade de governar em tempo de vacas um pouco menos magras. Mas fixar-se no passado, insistir na tecla de que deveria ter sido ele a governar é um erro clamoroso. Umas eleições há dois anos já não deixam memória no eleitorado, as coisas não funcionam assim. Pouca gente, a não ser os apaniguados directos, manterá o sentido de voto nas autárquicas depois de anos de oposição revanchista, agressiva, tacticista, focada em chicana sobre minudências.

Sim, o senhor Centeno prometeu algo que não podia cumprir, os senhores bancários que escolheu para chefiar a caixa não queriam mostrar as declarações de rendimentos, provavelmente porque obtiveram fortunas escandalosas em ordenados principescos em detrimento de clientes e accionistas dos bancos por onde passaram, isso é claro, mas o mesmo assunto já morreu, Centeno prometeu e não cumpriu, meteu os pés pelas mãos com desculpas de mau pagador. Se tivesse dito logo que prometeu porque não conhecia a Lei de 83 e que depois verificou que não era possível manter a promessa porque nem o Presidente, nem o Tribunal Constitucional o deixavam, ninguém lhe levaria a mal a não ser a inépcia política. Centeno não é nem político, nem jurista, é um técnico competente que tirou Portugal do buraco. Usando técnicas que defendemos aqui mesmo durante os tempos de Passos Coelho e que ninguém se deu ao trabalho de pensar e seguir.

Passos Coelho poderia ter usado as mesmas técnicas, mas optou por receitas que se viam à partida condenadas. Hoje arrasta-se, lamenta-se, anuncia diabos que nunca virão, acusa, barafusta e arrasta a direita para uma derrota gigantesca nas próximas eleições. Ainda por cima ataca o Presidente Marcelo num dia para o elogiar no seguinte, e o Presidente Marcelo preferirá que o PSD sofra uma derrota estrondosa nas próximas eleições para substituir um líder do qual nunca gostou; por um lado, vai manter a sua tremenda influência política em tempos de ‘geringonça’, por outro lado o PSD virá a ter assim um líder mais inteligente e sério, como Rui Rio, no final dos anos de ‘geringonça’. Agora focar-se no diz-que-disse das declarações dos senhores da Caixa é fazer um favor ao PS, o povo está-se nas tintas para as declarações da Caixa e apenas vê políticos a fazer figuras tristes, acrescentando descrédito a uma classe e a uma direita que está completamente desacreditada e sem liderança. Até quando?