A pequena revolução

A pequena revolução

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHAProcuradora Geral da República, Joana Marques Vidal, foi à ópera na sexta-feira passada, dia 21 de Novembro.

Escutava placidamente o Rigoletto de Verdi na cheíssima Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, via o maestro José Ferreira Lobo e um extraordinário Luís Rodrigues, o grande barítono português, no papel principal de uma récita em versão de concerto mas com representação cénica, via um grupo de malfeitores, os cortesãos, todos eles vestidos de smoking, fato de três peças e sobrecasaca, e um Duque de Mântua, qual presidente da República, vestido de sobrecasaca com faixa vermelha e verde atravessada sobre o peito.

Na mesma plateia via-se o ministro Nuno Crato, diversos ex-ministros, uma secretária de Estado, Reitor da Universidade de Lisboa e restante equipa reitoral, presidente do CCB e muitas individualidades relevantes da vida pública portuguesa.

O Rigoletto, de fato escuro e com barrete de campino, oriundo do povo e esmagado pelos mesmos cortesãos que, de bandeirinha verde rubra sobre o peito, faziam lembrar os ministros de um qualquer governo desta pobre democracia, Rigoletto ele próprio velhaco e vil mas revelando-se trágico no final ao encarar a morte de sua filha, que ele próprio despoletou, como uma lição tremenda: os poderosos vencem sempre neste regime podre.

Ao mesmo tempo que decorria a ópera, no aeroporto de Lisboa, qual cena do insuperável Padrinho de Francis Ford Copolla, José Sócrates Pinto de Sousa era detido e levado num carro medíocre para passar a noite na prisão, num desmentido profético da lição pessimista, à Schopenhauer, do Rigoletto.

A espantosa contradição de ver a Procuradora, calma e tranquilamente a ver e ouvir o genial Verdi, transposto para um Portugal agonizante em que os políticos se divertem e bebem champagne com os grandes financeiros e corruptores, é a marca de uma pequena revolução na justiça portuguesa que pode significar o fim da impunidade e da factual república de interesses e de corrupções em que Portugal se tornou, a negação do Quinto Império anunciado por Bandarra, Vieira e Pessoa.

Joana Marques Vidal, sentada na sua cadeira, apreciou a ópera. O seu trabalho estava a ser feito com competência e profissionalismo. Um comunicado, preparado com cuidado, saía no momento dos aplausos, aplausos que dir-se-ia serem para Rigoletto e para a prisão aguardada há muito tempo de uma das imagens mais sinistras em que o regime português se tornou. Um regime em que PS e PSD, e nisso são iguais, se servem do poder para, à custa dos que usam barrete de campino, os bobos da corte, engordarem e destruírem Portugal.

José Pinto de Sousa foi, porventura, pouco inteligente na forma como realizou as suas actividades, o que o levou a ser detido e indiciado de crimes graves. Outros, menos ávidos, esperariam pelo fim dos seus mandatos para entrarem, de forma perfeitamente legal, em dezenas de conselhos de administração, recebendo dinheiro líquido e chorudo, lavadíssimo, branquíssimo, fiscalizado e taxado, mas tão negro ou mais do que o recebido em malas e sacos de dinheiro e acumulado em obscuras contas de paraísos fiscais.

Espantosa é também a lavagem de mãos de António Costa, antigo ministro, cortesão, de José Sousa, como se os portugueses tivessem a cara de Sócrates no boletim de voto e não a mão fechada do PS. Como se aquilo que indicia o primeiro-ministro caído, não fosse a prática de todo o regime português desde os tempos dos capangas do marquês de Pombal. Ao não condenar fortemente José Sócrates, e ao dizer que o PS não apaga retratos de ex-dirigentes, Costa afirmou solenemente, como disse Paulo Morais, que a corrupção é para continuar.

Apesar de uma floresta legislativa feita pelos políticos para proteger, de facto, a corrupção, a magistratura portuguesa eleva-se e começa a fazer uma pequena revolução.

Mas, como no Rigoletto, o final da história ainda está por contar…

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