Portugal a saque

Portugal a saque

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MANUEL SILVEIRA DA CUNHA
Espanta-me a extraordinária riqueza de Portugal. Um país que se pode dar ao luxo de desperdícios incríveis deve ser extraordinariamente rico. Ou então ter no seu governo totais irresponsáveis que deveriam ser julgados e severamente punidos por patrocinarem este monstruosos desperdício.

Dou como exemplo, entre uma gigantesca lista de quartéis abandonados, de palácios arruinados, de conventos a cair, sejam municipais, ou o célebre Metro do Mondego, em que se gastaram 100 milhões de Euros para que Passos tire um coelho da cartola e venha agora falar de autocarros eléctricos (hum? repita lá isso outra vez?), sejam do Estado.

O caso notável da Escola Industrial Afonso Domingues, inaugurada no actual local, Marvila em Lisboa, em 1956 é paradigmático. Esta escola foi, sem haver projectos, sem uma clara definição de trajectos das futuras vias, abandonada em 2010, por, supostamente (era este o argumento), ter sido ameaçada de expropriação pela REFER para a realização da terceira travessia do Tejo.

O argumento para o encerramento e abandono foi, já de si, ridículo. A escola funcionava, tinha sido remodelada em 2009, uma rede sem fios instalada e a escola requalificada. Era uma escola estratégica para um país que pretendia desenvolver-se, não existem muitos outros exemplos de instalações com oficinas equipadas e preparando jovens técnicos para uma profissão digna ou para o ensino universitário nas áreas de engenharia; seria um instrumento fundamental numa estratégia de requalificação do nosso tecido industrial e produtivo.

Uma ameaça vaga da REFER, que depende do Estado, nunca seria motivo para a debandada, foi apenas um pretexto. A terceira via era uma miragem, uma aldrabice para engendrar estudos e dar uns cobres a ganhar a umas consultoras e alguns amigalhaços e nunca um verdadeiro desígnio. Veio a crise e o plano falhou em toda a linha e nem se fala do assunto.

Entretanto, as belíssimas instalações da escola foram fechadas de um dia para o outro e os funcionários remetidos para outras instalações ou reformados. A escola, dependente do ministério da educação e do ministério das finanças, foi encerrada, e colocados cadeados nos portões. Começou imediatamente o saque e a vandalização.

Quase não restam vidros, a escola fechada com todos os equipamentos lá dentro nunca foi alvo de segurança, completamente abandonada num local ermo, os ministérios nunca se preocuparam em transportar os valiosos equipamentos para outros locais.

Todas as instalações foram arrancadas, não sobra um fio na escola, uma loiça intacta, cadeiras e secretárias roubadas ou partidas in situ.

O governo comportou-se como um governo de um Estado falhado governado por um bando de piratas em vez pessoas sérias que zelam pelos bens que todos lhes confiámos. A actuação do governo e das autoridades neste caso é pior do que a dos saqueadores, como se vivêssemos em guerra civil e ninguém se importasse.

A escola é agora pasto de drogados, de bandidos, de simples miseráveis que se acolhem nas destruídas instalações. Aquilo que custou milhões a fazer, que se construiu durante muitos anos, foi destruído em meia dúzia de dias de saque, que prossegue agora com a destruição gratuita pelo prazer de destruir.

Os governantes que abandonaram o edifício sem proverem pela sua segurança, pela sua conservação, pela guarda dos bens que depositamos nas mãos do Estado deveriam ser responsabilizados criminalmente, e se quem começou foi Isabel Alçada, que mandou fechar a escola sem garantir a sua salvaguarda, seguiram-se Nuno Crato, que nada fez, e os dois ministros das finanças que se sucederam, Gaspar e esta Maria Luís.

A solução teria sido tão simples: instalar a PSP, carenciada de oficinas, no dia seguinte ao abandono pelo ministério da educação, entrega aos bombeiros do Beato, ali a trezentos metros, que deixam os carros na via pública porque não têm um quartel em condições.

Ambas as instituições estão interessadas e pediram ao Estado uma resolução do assunto. Mas o Estado nada faz.

Somos, portanto, uma de duas coisas: ou um país riquíssimo que se pode dar ao luxo de deitar para o saque os milhões que andamos a reclamar, ou um país em que se deixa saquear um bem precioso porque os governantes são, provavelmente, dos piores do mundo e comportam-se como os governantes da Libéria de James Taylor.

Onde estavam a polícia e o ministério público quando se deu o saque?

Alguém apresentou queixa?

Ficam as perguntas e a amargura de quem vê o país a saque e os irresponsáveis de fato e gravata.

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