Manuel Silveira da Cunha

Não se trata de uma questão de legitimidade, não se trata de discutir quem ganhou as eleições. Trata-se apenas de uma birra de criança. Passos Coelho quer continuar por mais quinze dias no poder, um novo governo, feito com o refugo do anterior, juntando uns quantos “boys e girls” vindos das concelhias e distritais do PSD, juntam-se mais umas raparigas que perderam o assento no parlamento e temos os ingredientes para uma nova formação, novos gabinetes, novos motoristas, novos assessores, tudo nomeado por uns dias que se convertem em meses com os subsídios de entrada e saída e mais as indemnizações respectivas. Entretanto, ministros como Paulo Macedo, o melhor do anterior governo, ou homens feitos como Pires de Lima ou Nuno Crato, recusam manter-se em funções a fingir que governam para fazer o frete ao rapaz da JSD.

O mesmo Passos Coelho que voava em económica, numa também infantil e ridícula tentativa de se afirmar por um exemplo tonto de poupador, é quem vai gastar ao Estado, e a todos nós, mais alguns milhões em custos directos, por ter um gabinete novo, e pelos custos indirectos de adiar a entrada em funções de um governo com maioria.

Será que o país poderá pagar isto? Os desmandos eleitoralistas, que valeram a reeleição da coligação, os desmandos do adiamento constante das soluções, os desmandos de uma esquerda que aparece como a suprema despesista? Parece que não. O mais provável é que a situação saída destas eleições provoque mais um estouro das contas públicas e uma nova intervenção dentro de meses, juntamente com mais umas eleições dentro de um ano.

O que é triste nesta situação política é a falta de sentido de Estado de todos, sem excepção. Sem estadistas, os chefes de facção, mais ou menos falhados, mais ou menos derrotados, que nestas eleições não houve vencedores, comportam-se como adolescentes e não como pessoas responsáveis, que demonstram não ser.

A esquerda quer o pote das moedas a todo o custo, a direita quer manter o mesmo pote na mão. Quando seria necessária uma grande convergência nacional surge apenas uma triste convergência, a da mediocridade. Percebendo que não poderia formar governo estável, teria bastado a Passos uma saída digna, se soubesse o que é isso: recusar-se a formar governo e passar para a oposição. Usar estes quinze dias, que são, afinal, mais de trinta, que o outro chefe de facção, Cavaco Silva, lhe concedeu, para formar gabinetes, nomear ministros e secretários de Estado de faz-de-conta e gastar, de caminho, uma pipa de dinheiro é uma irresponsabilidade, é uma afirmação de força do “jovem” que demonstra que não tem força nenhuma. Em última análise, Passos Coelho está a dar à esquerda uma oportunidade de ouro para usar este tempo para manter mais conversações e tentar um acordo quase impossível. Se Passos Coelho entregasse as chaves a Cavaco, as fragilidades da esquerda seriam ainda mais evidentes. Uma direita forte na oposição massacraria o governo de António Costa entre a chantagem dos radicais de esquerda e o muro de aço de legitimidade, responsabilidade de quem teria prescindido de governar mais uns dias, abdicando em favor do país, mesmo podendo exigir o poder. Poderia assim construir uma solução mais sólida após o colapso da maioria contra-natura que se forma entre PS, Bloco de Esquerda e PCP. Esta solução poderia mais facilmente viabilizar uma eleição de Marcelo Rebelo de Sousa à primeira volta, representaria desapego relativamente ao poder pelo poder e um elevado sentido de Estado.

Apostar num fantasma, gastar mais uns milhões, sonhar com mais uns dias no Bunker de Berlim é sinal de falta de preparação, de infantilidade e de falta de sentido de Estado. Se juntarmos a isto tudo um presidente pretensioso, provinciano e pouco inteligente, temos os ingredientes para fazer das esquerdas vítimas, e não os vilões, no meio desta complicada situação.

Saber retirar estrategicamente para depois avançar em força, não é um conceito que rapazes vindos da JSD possam apreender com facilidade, mas exigia-se mais ao presidente Cavaco.

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