O elogio a Salazar por Daniel Oliveira

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Manuel Silveira da Cunha

Num artigo publicado a 8 de Março no Expresso, Daniel Oliveira, um comunista pelo qual tenho simpatia pessoal, faz um elogio espantoso a Salazar, o que num “homem de esquerda” é uma espécie de sacrilégio que lhe valerá certamente a excomunhão dentro da crença Marxo-Trotskista.

O título era “O homem que queria ser como Salazar mas faltavam-lhe todas as qualidades” e parecia uma diatribe contra Cavaco Silva, o homem que é de bom-tom odiar depois. Atendendo a que Cavaco é um irrelevante que nem sequer consegue comer em público, uma emanação do povinho português que ficou em casa a cultivar batatas e outros vegetais enquanto os outros faziam as epopeias e escreviam os Lusíadas, nem vale a pena perder tempo com tão vil defunto. A parte que diz respeito a Salazar, esse grande que governou Portugal, apesar de alguns resquícios dessa mesquinhez desse povo lusitano cultivador de vegetais das Beiras, é que merece reflexão. Anátema das esquerdas, Salazar é chamado de fascista, comparado a Hitler, Mussolini ou Franco, e a sua actuação como Presidente do Conselho nunca foi alvo de uma revisão crítica e inteligente e quando se chegam as esquerdas a discussão torna-se histérica e ofensiva. No caso de Daniel de Oliveira, a situação acaba por ser bizarra: na sua ânsia de amesquinhar Cavaco, coloca Salazar num pedestal que nem um conservador como nós ousaria fazer sem alguns cuidados.

Começa no título do artigo, Salazar tinha “todas as qualidades”, elogia Daniel de Oliveira o grande Oliveira Salazar, mas prossegue no corpo do texto: “professor de Finanças austero”, classifica Salazar como detentor de “trágica grandeza”, mas o mais espantoso é o discurso directo do elogio: Salazar detinha em si “cultura histórica que lhe permita representar a Nação, a cultura política que lhe permita ter um desígnio para o País e a cultura ética que lhe permita ser um modelo”.

Termina o artigo afirmando: “Cavaco é afinal só Cavaco. A sua tragédia é ser demasiado pequeno para todo o poder que teve” por antítese a Salazar que, depreende-se do texto, foi demasiado grande para o pequeno poder que teve, governante de um país que tentava a todo o custo conservar grande mas que sabia ser vã tentativa num oceano demasiado vasto de conflitos geoestratégicos.

Fica o registo de uma primeira assunção de reconhecimento de Salazar por um guru das esquerdas bem pensantes. Outros se seguirão. Salazar governou há mais de meio século, é tempo de repensar a sua governação de uma forma menos entrincheirada e mais científica, analítica e objectiva.

Marcelo o “Presidente do Povo”

Entretanto, Marcelo em cinco dias deixa para trás todo a presidência de Cavaco. Hoje, se se repetissem as eleições, Marcelo teria oitenta por cento dos votos. Franco, descontraído, amigável e enérgico, com uma palavra para todos sem excepção, Marcelo é ele próprio, não só no seu lado espontâneo mas também no que aprendeu e na sua inteligência. É óbvio que toda a acção de propaganda de Marcelo é também fruto da sua inteligência, é pensada e maturada. Funciona por antítese a Cavaco, a quem fez esquecer em poucos dias e relegar para um plano mesquinho e miserável, por antítese, e funciona por preenchimento de um vazio, um vazio real deixado por Cavaco, e um vazio de poderes. Marcelo percebe que a figura do Presidente só faz sentido, esvaziado de poderes como está, se for extremamente popular e tiver um capital de prestígio que o põe acima de tudo e todos. Depois destes dias, Marcelo tem o maior dos poderes, o capital do apoio de todo um povo, sendo eleito em sufrágio universal e directo, a subversão do papel de presidente faz-se através dessa força que vem do próprio povo e que não se esgota nas eleições. Marcelo começa nas eleições e não se sabe onde virá a acabar.

Marcelo aprendeu com o Papa Francisco e percebeu uma lição de mestre dada pelo Jesuíta que ocupa o lugar de S. Pedro. Marcelo poderá fazer o que quiser com este poder que vai adquirindo, espera-se que não frustre as expectativas e que faça uma subversão positiva do estado a que esta Nação chegou. Se Marcelo falhar ninguém mais terá o poder de raiz popular que Marcelo começa a encarnar.

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  • Teixeira.net

    Um dia tinha que se fazer um ajuste de contas entre as coisas boas e más do regime que saiu do 25/Abril e do regime de Salazar.

    Sem esconder nada, de bom ou de mau, nos meus comentários (Expresso) expliquei que não obstante os erros, alguns graves, de Salazar, em alguns parâmetros, ficava muito acima dum regime que ao fim de 40 anos, depois de ter diabolizado o anterior regime, mostrou que esteve muito abaixo das fantasiosas promessas que tinha feito.

    Curiosamente, dei-me conta que o proibido nome de Salazar começou a aparecer noutros comentadores e – espantai ó gentes – até o D. Oliveira. Devo dizer que quase não acreditei no que estava escrito no artigo!

    Até nas livrarias, os livros sobre Salazar, Territórios Ultramarinos, Descobrimentos, e toda a espécie de histórias sobre a nossa Monarquia começaram a aparecer.

    Os temas tabu estavam a deixar de o ser.

    Pode-se enganar toda a gente durante um certo tempo;
    Pode-se enganar algumas pessoas o tempo todo;
    Mas não se pode enganar toda a gente, o tempo todo.
    (Um Presidente americano cujo nome não recordo)

  • Paulo Reis

    O que posso acrescentar ao comentário de Teixeira.net é que, vamos lá saber porquê, a historia de 74 para cá não é ensinada nem faz parte da matéria obrigatória no ensino da disciplina. Dá que pensar…. Será por vergonha do nosso passado recente?

    • Teixeira.net

      Oh, meu caro, como é que se “pode vender os ideais democráticos e revolucionários”, com ~ 70% de abstenção??? Como é qui podji?

      (Agora a sério: costuma-se deixar um período de 50 anos até os assuntos serem historicamente considerados)