MANUEL SILVEIRA DA CUNHA

Manuel Silveira da Cunha

Escrevia a historiadora Raquel Varela, numa rede social recentemente:

“Dramático é chegar à conclusão que um concurso de TV hoje aparece aos jovens [mais] como maior factor de mobilidade social do que estudos dedicados. Quem acha que o desemprego é só um problema dos desempregados esquece-se que todos nós como sociedade sofremos com este flagelo que não é como a chuva, não cai do céu, é uma opção económica de pressão salarial sobre todos, e altamente estimulado pelo Estado. A TV lixo, apoiada no desespero individual, é também fruto da famosa liberalização do mercado – para que dê lucro baixam-se custos de produção, desaparece o realizador, o guionista, o director de fotografia, os actores, e por aí fora, até nos depararmos com estas monstruosidades sociais em que os mais frágeis tentam tudo para sobreviver e os mais fortes aproveitam tudo, e ainda se riem da miséria que criaram. Temos que mudar o mundo, antes que ele nos mude a nós.”

Vem esta citação a propósito do rapaz de orelhas grandes aviltado pela SIC no programa “Ídolos”, um programa de televisão em que o mais importante não é a descoberta de novos talentos, aliás fruto de uma efémera fama e não de estudos aprofundados e da integridade e seriedade dos envolvidos, fama que nunca poderá perdurar para além da espuma dos dias e das memórias de curto prazo; o mais importante nestes concursos é a chacota que se exerce sobre os chamados “cromos” pelos produtores que não hesitam em atentar contra a dignidade humana e a imagem pública dos jovens iludidos que por lá passam, numa vergonhosa exploração dos sonhos ingénuos de pessoas a quem nada mais resta do que arriscar-se à chacota pública em troca de uns segundos de reconhecimento.

O lado criminoso da questão passa-me ao lado do que significa aquela barbárie, promovida por estações de televisão, com um grupo de jurados estrábicos de voz aflautada como cúmplices, como dizia Ferreira Fernandes no DN, numa das suas raras intervenções ajuizadas, jurados medíocres que servem apenas para consumar e credibilizar, falsamente, o achincalho dos sonhos breves de alguns jovens.

É evidente que Raquel Varela não consegue escrever sem tirar ilações ideológicas, enformada aos antolhos do socialismo radical trotskista que adoptou como forma de ver o mundo. De facto, os programas do tipo “Big Brother” podem ter as características apontadas por Varela mas continuam a ser programas caros, de produções milionárias. Os programas do tipo “Ídolos” mantém realizadores, produtores e demais equipas, sendo extremamente caros de produzir. O problema aqui não é o capitalismo ou o socialismo, não é a ânsia do lucro.

O problema é outro, um problema que os socialistas no seu dogmatismo ideológico nunca conseguem descortinar. O problema é a natureza humana. Schopenhauer e o seu pessimismo são a chave da questão. Uns querem uns segundos de fama dentro da sociedade de símios que é a Humanidade, com todos os seus defeitos e virtudes; outros, os espectadores mórbidos, querem ver as desgraças alheias e tirar prazer sádico e riso alarve das patetices dos jovens ingénuos.

Cínicos envelhecidos que são, incapazes de sonhar, não são capitalistas ou trabalhadores que vêem aquilo, são seres humanos com todas as suas fraquezas. E entre os desgraçados sonhadores que lá aparecem, entre os miseráveis que já nem sonham mas que assistem e se riem alarvemente, entres os irrelevantes que constituem o júri, os piores são mesmo os que organizam o circo e dele tiram os lucros. E, nesse sentido, Raquel Varela tem razão. Infelizmente continuarão a lucrar, porque é assim a natureza humana e não vivemos numa sociedade de bons selvagens cheios de boas intenções, seja ela socialista ou capitalista.

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