Um novo Presidente

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Manuel Silveira da Cunha

Para nós, que pensamos a instituição presidencial como uma traição à Pátria Portuguesa, a eleição de um novo presidente da república é um acontecimento quase irrelevante. Não houve um único presidente da república, com a honorável excepção de Sidónio Paes, que fosse minimamente relevante para o país. Desde os trastes da primeira república passando pelas marionetas ao serviço de Salazar, até aos presidentes da dita “terceira república”, os personagens foram ou irrelevantes ou malévolos.

O sistema presidencialista português não dá quaisquer poderes executivos a um presidente eleito em sufrágio universal e directo; serve assim como um árbitro, os seus vetos são irrelevantes e eliminados por simples maioria parlamentar. O presidente existe como poder imanente do seu prestígio pessoal. Cavaco Silva iniciou o seu mandato com algum capital de prestígio mas o que se passou durante o seu mandato revelou um personagem titubeante, pouco corajoso, acomodado. Foi Cavaco o presidente que fez subir no mastro a bandeira de Portugal ao contrário, o mesmo que deu posse a Sócrates e a Passos Coelho, dois dos maiores expoentes da decadência intelectual e política de Portugal no seio das nações.

Essa ausência de poderes foi instituída pelos partidos para poderem dispor do poder, e das suas prebendas, como se fossem tentáculos de um gigantesco polvo. O presidente sem poderes, que não em casos extremos e raros, não modera coisa nenhuma num regime podre em que os partidos maioritários, PS e PSD, dividem os frutos do poder para benefícios pessoais e das suas clientelas. Nunca poderiam permitir, estes partidos, que um presidente pudesse intervir na vergonhosa apropriação de Portugal. Depois de retirar poderes ao “mais alto magistrado da nação”, o passo seguinte foi escolher homens velhos, medíocres, acomodados e, acima de tudo, irrelevantes, naquilo que é apenas mais um degrau na degradação institucional, política e do prestígio a que a presidência da república chegou. Chegou-se ao extremo de termos um presidente que não sabia comer em público e era apupado cada vez que saía de Belém.

Felizmente foi eleito um novo presidente. Marcelo Rebelo de Sousa poderá ter um papel importante na inversão de declínio a que a figura presidencial chegou. Um homem que gosta do seu povo, que está bem no meio das pessoas e que genuinamente se importa, um homem maduro mas não envelhecido, um homem enérgico, capaz de inverter a degradação da figura do presidente pela sua força de actuação, apesar da sua irrequietude e de algumas manipulações e invenções de “factos políticos” no passado. Amanhã tomará posse Marcelo Rebelo de Sousa, não será um Rei, ou seja, alguém que não se vendeu para chegar ao trono, mas, pelo menos, é um homem preparado para a função, um milagre nos tempos que correm.

Apesar de não acreditarmos na instituição republicana, somos portugueses, este é o regime actual, desejamos assim que o presidente de Portugal actue com dignidade e não envergonhe os portugueses. Nuvens sombrias aproximam-se. Os bancos estão todos falidos, apesar das falcatruas que praticam constantemente, pela política de casino que têm desenvolvido ao longo dos anos e circunstâncias excepcionais aproximam-se. Os poucos poderes do presidente vão emergir de novo. Será importante que o novo presidente esteja à altura de suceder ao Fundador e a D. João II na cimeira do Estado, até para evitar a sua extinção. Os nossos melhores votos estão com Marcelo Rebelo de Sousa, um dos poucos príncipes do regime; esperamos convictamente que tenha sucesso na sua tarefa.

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