Notas para uma nova estratégia nacional (I)

Notas para uma nova estratégia nacional (I)

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RENATO EPIFÂNIONestas últimas décadas, é cada vez mais consensual que não temos tido uma visão estratégica nacional. Os sucessivos Governos têm feito uma mera navegação à vista.Daí a nossa cada vez menor autonomia.

Como não temos tido estratégia, temos sido governados ao sabor dos ventos. Importa, por isso, definir um novo conceito estratégico nacional, que, não pondo em causa a nossa integração europeia, aposte mais no Mar, tirando todo o partido da nossa plataforma continental, que deveremos defender intransigentemente, no âmbito de um reforço negocial dos nossos interesses estratégicos no seio da União Europeia, que nos deve levar, no devido tempo, à reconsideração da nossa dívida externa, no respeito pelos vários acordos internacionais firmados, à escala europeia e mundial.

De igual modo, deveremos tirar todo o partido da nossa localização geostratégica. Ao contrário do que tem sido dito nestas últimas décadas, Portugal não é um país periférico – ou só o é à escala estritamente europeia. A uma escala global, Portugal pode e deve assumir-se como um elo de ligação central entre três continentes: Europa, África e América.

Daí, igualmente, a importância do mar e das ligações marítimas, que devem ser devidamente articuladas com as ligações aéreas (daí a importância estratégica de uma transportadora aérea que sirva os nossos interesses estratégicos) e terrestres (defendendo nós uma aposta maior nas ligações ferroviárias, nomeadamente a criação de um eixo de ligação com a restante Europa).

Paralelamente, devemos apostar muito mais na relação com os restantes países e regiões do espaço lusófono, porque é essa dimensão que dá a Portugal uma escala verdadeiramente global, que se estende aos quatro cantos do mundo.

Isso será desde logo importante no plano linguístico e cultural – uma língua que é falada por cerca de 250 milhões de pessoas é decerto uma língua com o futuro garantido e base sólida da promoção da nossa cultura a uma escala mundial –, mas também nos planos económico, pelo potencial de investimento ainda muito pouco potenciado, e social: com o mercado de trabalho cada vez mais estrangulado a nível nacional e mesmo europeu, os países lusófonos podem e devem ser vistos como naturais destinatários de parte da nossa mão-de-obra mais qualificada, com os quais devem ser estabelecidos protocolos de migração nos dois sentidos.

Internamente, esta nova visão estratégica nacional deve passar por promover uma maior coesão territorial e sustentabilidade ambiental: Portugal não pode continuar a ser um país cada vez mais confinado ao litoral. Isso passa, a nosso ver, por uma reafirmação do Estado em todo o território – nas suas diversas facetas, como a segurança –, bem como pela dignificação da Administração Pública, que tão descredibilizada tem sido nas últimas décadas, não abdicando nunca das funções soberanas do Estado.

Passada a euforia ultra-liberal, mas sem qualquer nostalgia dos regimes socialistas, é tempo de, sem complexos, reafirmar a importância de um Estado forte: na sua eficiência e capacidade de regulação, não no seu peso sobre a sociedade civil. Esta deve ser vista como parceira e não com suspeição.

Quanto mais forte for a nossa sociedade civil, mais forte será o nosso Estado, mais forte será Portugal.

Post Scriptum – Esta semana, “Nova Águia” no Museu de Língua Portuguesa, em São Paulo: 12 de Dezembro, às 17h.