O fim do mandato de Barroso

O fim do mandato de Barroso

0 1099

JOSÉ SERRÃODurão Barroso cessou a sua presidência na Comissão Europeia.

Foram 10 anos difíceis. A crise do sistema financeiro veio pôr em evidência todas as fragilidades de uma Europa que cresceu, no que ao numero de membros diz respeito, mas que se afastou do modelo sonhado pelos fundadores da Comunidade do Carvão e do Aço. Os países perderam poder individual em troca de uma suposta dinâmica democrática que se limitou a conferir aos mais poderosos os poderes de controlo e de domínio.

De uma Europa das Nações, Durão deixou uma Europa germanizada e tutelada por uma Alemanha que em tempos se soube unir e solidificar a sua hegemonia.

Durão Barroso ficará na história da União e certamente não pelas melhores razões. Por culpa própria ou mera vítima das circunstâncias, Durão Barroso fica associado a uma Europa da austeridade, do desemprego, mormente no mundo jovem, de uma Europa incapaz de reagir aos ditames dos tempos, de uma Europa perdida nos seus nacionalismos, de um Europa descredibilizada, onde a voz de Merkel é mais ouvida do que a voz de todos os líderes europeus, subvertendo as instituições e minando um poder que deveria ser agregador e não de mera fachada.

Barroso deixa a Comissão Europeia e só a memória dos tempos permitirá saber se, ainda assim, foi por sua acção que a Europa não se desmoronou por completo face às ameaças do poder financeiro internacional e dos banqueiros europeus, face às tentações hegemónicas de alguns e face ao despertar de potências emergentes como a China e mesmo a Índia.

No seu discurso de despedida, registo o aplauso de pé de Francisco Assis.

O antigo líder parlamentar do PS e candidato derrotado por Seguro à liderança do PS, actual eurodeputado socialista, não se coibiu de aplaudir e de o fazer de pé. As razões do seu acto apenas a ele dizem respeito, mas, como sempre, Assis revelou ser um estadista e um político que sabe estar muito acima dos interesses partidários.

Num acto politicamente incorrecto face aos valores preconizados pela nossa actual nomenclatura pensante, o gesto ganha valor por si próprio e será recordado como expressão de quem sabe pensar e defender a imagem de Portugal e dos que, desta terra, são conduzidos a assumirem no plano internacional funções de alto desígnio.

Não defendo que se aplauda um português apenas pela sua nacionalidade se a sua acção não tiver a dignidade que defenda a nossa imagem colectiva. Mas prefiro e defendo, ao contrário de muitos, um português no exercício de funções de grande relevância internacional a um estrangeiro, por “mais amigo de Portugal” que seja.

Foi assim que defendi Freitas do Amaral na Presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas e António Guterres como alto Comissário da ONU para os Refugiados, entre outros.

E assim farei com qualquer português, independentemente da sua cor ou da sua ideologia, desde que a sua capacidade e competência o justifique à partida, confiando que a sua acção promova sempre os valores humanistas e universalistas que, desde os primórdios da nossa nacionalidade, nos levaram a “dar novos mundos ao mundo”.

ARTIGOS SIMILARES