O meu eléctrico amarelo

O meu eléctrico amarelo

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Luísa Venturini

A conversa com um amigo levou-me, como tantas vezes, até ao imaginário pessoano e, talvez pela atmosfera pesada do dia ou pelo meu cansaço, que anda a ensopar-me os ossos e novamente a brincar à apanhada com as minhas insónias, ficou mesmo a apetecer-me apanhar o tal eléctrico amarelo, passear entre pirâmides e conversar com o rei Quéops.

Claro que isto me dá pretexto para matar saudades do meu amigo Paulo Guilherme d’Eça Leal, refascinar-me com os mistérios dos côvados e tornar a revisitar mentalmente a maravilha gótica de uma Aljubarrota da alma.

E, mesmo sem querer, entristeço por não se me escapar o pensamento sobre o acanhadas que andam as nossas alas, mas isso são outras histórias, que hoje não me restam ganas para suspirar por Álvares, por muito que me sejam de Boa Memória.

Hoje é mesmo dia de apanhar o eléctrico amarelo (sim, amarelo e não de qualquer outra cor), que ilumina veredas, por esconsas que sejam, e me transporta deste acabrunhamento em que o mundo, o dito real, tem andado afivelado.

O trajecto? Provavelmente alucinado, com infusões de ervas exóticas a amparar encontros com avós Délficas, com percursos geniais por clareiras do Hindustão, com danças de roda por montes de lua e de muita bruma, com ou sem lagos nas redondezas, porque, à míngua, qualquer riacho serve.

Digamos que meia dúzia de paragens-entre-mundos, para me reabastecer para este, que me anda a engasgar as ideias de tal modo que qualquer interstício entre elas gera espaço suficiente para um belo eléctrico amarelo e para quantos trajectos me aprouverem.

Hoje, contentar-me-ei com apear-me numa rosácea, daquelas que dos orientes trazem as “letras” para os que sabem ler e que iluminam a cidade de Santa Res e a outra, a de Taurus, e mais umas quantas conhecidas dos demandadores de caminhos e de outras coisas.

Vou enrodilhar-me nela e ficar à escuta.

Tenho a certeza que, esta noite, o sol vai cantar para mim.

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