Quem quer servir Portugal

Quem quer servir Portugal

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José Serrão

A semana que passou fica indubitavelmente marcada pela crise no BES, a eleição do novo Presidente da Comissão Europeia e pelo cobarde assassinato de quase 300 pessoas que seguiam a bordo de um Boeing 777 da Companhia aérea da Malásia.

Neste último caso, para além da triste e infeliz coincidência de dois aviões do mesmo tipo e da mesma companhia terem sido alvos, no espaço de poucos meses, um de desaparecimento (?) e outro de abate. Repudia-se, naturalmente e com toda a veemência, que se use um avião comercial – de bandeira diferente dos beligerantes – para o diferendo que opõe a “Rússia” à Ucrânia.

Este acto, violento, cobarde e inusitado, pode ser o fim da máscara de Putin no conflito em causa. A comunidade internacional tem, uma vez por todas, que ser firme e ter uma palavra de condenação contra a prepotência russa. Não pode calar-se sob o pretexto da protecção de interesses económicos, mesmo os que são, hoje, essenciais ao bem-estar das comunidades e dos povos, nomeadamente os europeus, como é o caso da importação de gás natural.

No segundo caso, a eleição de Juncker representa uma continuidade das políticas anteriores e a hegemonia clara da Alemanha e da sua Chanceller.

No furor da sua eleição, Juncker prometeu a criação de dezenas de milhares de empregos, de mais e melhor investimento produtivo, de crescimento… etc.

Promessas que não detalhou, nem esclareceu como irão acontecer. Melhor, onde estavam guardadas para virem agora, só agora, à luz do dia? Não é Juncker um dos pais do Euro e da sua relevância para uma Europa mais competitiva, mais sólida e mais sustentável? Pois… porque se remeteu ao silêncio durante estes anos de crise financeira, dos mercados, de austeridade duríssima… se tinha acesso à fórmula mágica do crescimento e do desenvolvimento?

Temo os líderes que prometem o que não depende deles mesmos. Sempre terão a desculpa de que tudo fizeram… mas não dependia deles. Como se não o soubessem desde sempre.

Teria gostado de ouvir Juncker prometer que tudo faria para que o projecto europeu retornasse ao sonho de Schuman e de Monnet… uma comunidade de países e povos iguais, com os mesmos direitos independentemente da sua dimensão geográfica e demográfica. Mas sobre o que importa politicamente à Europa… nada disse. Temo que a economia e a finança continuem a dominar tudo e todos, arrastando-nos para um abismo de consequências imprevisíveis.

Por fim, o BES. A queda da família Espírito Santo é uma consequência natural do desastre financeiro e até económico de que agora começamos a ter algum conhecimento. Confio nas palavras institucionais do Governo e do Governador do Banco de Portugal, o qual, diga-se de passagem, tem tido um papel determinante e de grande mérito. Como seria se Constâncio não tivesse sido promovido para a Europa?

A entrada da nova administração, liderada por Vítor Bento, veio dar credibilidade ao banco e reforçar a ideia de que nada será como dantes. O senhor “DDT” tem, na realidade, muitas explicações para dar. Esperamos por elas…

Mas a crise do BES é, na realidade, mais uma das expressões da crise de regime em que nos encontramos. Volvidos 40 anos sobre o 25 de Abril, Portugal encontra-se confrontado com a sua própria história.

O sistema político está desacreditado, como desacreditadas estão as principais instituições nacionais, incluindo o Parlamento, os Tribunais e demais Órgãos de Soberania.

Os partidos políticos desagregam-se dia após dia – vide o que se passa no Bloco de Esquerda e no PS. No principal partido da Oposição, a guerra fratricida está para durar e para deixar atrás de si um lastro de destruição… Alguém acredita que Seguro, após a derrota, dá as mãos a Costa e luta para que este seja primeiro-ministro? E, no caso inverso, alguém acredita que Costa sustentará e apoiará Seguro? Eu não…

Ao contrário dos que atacam as propostas de compromisso ou consenso nacional à volta das grandes questões que a todos importam e afectam, com os argumentos mais falaciosos possíveis, como sendo que para haver consenso tem de se saber primeiro sobre o quê, por quanto tempo, etc., ou que tal é inoportuno porque o PS está em crise… (?!), eu digo: para haver consenso tem de haver Vontade, sentido de Estado, Desprendimento pessoal ou partidário, Bom Senso e Patriotismo. O resto é secundário.

Urge saber quem está ou não disposto a servir Portugal…!

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