RENATO EPIFÂNIO

Ao contrário da Revista NOVA ÁGUIA, que foi programada para funcionar como um relógio suíço – e assim tem acontecido, em cada semestre, com cada novo número a sair na data prevista –, a Colecção NOVA ÁGUIA tem crescido de forma mais errática. Ainda assim, desde 2008, foram publicados, contando já com este título, mais de meia centena de volumes.

Sem desvalorizarmos nenhum dos outros títulos – alguns dos quais da nossa própria autoria – não podemos deixar de destacar este: “Agostinho da Silva – A Última Entrevista de Imprensa” (Zéfiro, 2016). Por ser de quem é e, não menos relevante, pela circunstância em que sai.

Com efeito, após 2006, ano do centenário do nascimento de Agostinho da Silva, em que se publicaram vários títulos de e sobre este pensador que para nós é o mestre maior da Lusofonia, nos últimos anos esse fluxo que parecia emergente estagnou quase que por inteiro, o que é tanto mais estranho porquanto ainda há bastantes inéditos de Agostinho da Silva por publicar e havia um grupo de pessoas dispostas a trabalhar na publicação desses inéditos.

Com a enfermidade que tem vindo a vitimar Pedro Agostinho da Silva, o seu filho mais velho e representante dos restantes herdeiros, uma espécie de maldição veio a vitimar igualmente todo esse trabalho, pondo inclusive em causa o que havia sido já feito. Sabemos do que falamos, ainda que, por enquanto, não queiramos falar de tudo o que sabemos. Mas chegará o dia em que diremos tudo – fica aqui a promessa. E quem nos conhece sabe que assim será.

Por enquanto, falamos apenas, por exemplo, de uma “exigência” feita à Associação Agostinho da Silva para que retirasse do seu portal a digitalização, que nós próprios realizámos, da série Iniciação: Cadernos de Informação Cultural, promovidos por Agostinho da Silva nos primeiros anos da década de 40 – algo sem, no presente, qualquer valor comercial, mas relevante para todos aqueles que pretendam estudar a Obra de Agostinho da Silva. Essa “exigência” não foi, pelo menos até ao momento, aceite, e não acreditamos que venha a sê-lo. Mas o simples facto de ter sido feita denota bem a situação absurda – passe o eufemismo – a que chegámos.

Por tudo isso, saudamos pois, efusivamente, a edição deste livro, em que se publica a última entrevista concedida à imprensa por Agostinho da Silva e que só conhecíamos numa pequena parte – aquela que foi na altura publicada no jornal “Raio de Luz” e que referimos no nosso estudo “Perspectivas sobre Agostinho da Silva na imprensa portuguesa” (Zéfiro, 2008). Que esta última entrevista seja o primeiro de uma série de novos livros de Agostinho da Silva, eis o voto que aqui formulamos. Não era ele, Agostinho, que acreditava no imprevisível?

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