RENATO EPIFÂNIO

Tal como as pessoas, há países que têm “mais mundo” do que outros. No caso europeu, se há país que tem mundo é a Grã-Bretanha. No caso europeu, só há um outro país comparável: Portugal, precisamente.

Posto isto, é absurda a alegação, que muitos têm aduzido, de que a Grã-Bretanha, ao sair da União Europeia, ficará “isolada do mundo”.

Se há país europeu, a par de Portugal, com ligações histórico-culturais com todas as partes do mundo é, reiteramo-lo, a Grã-Bretanha – só a “Commonwealth” agrega mais de meia centena de países. Isso era assim muito antes de a União Europeia existir. E continuará a ser assim, porventura ainda de forma mais forte, depois da saída britânica da União Europeia.

Dito isto, não estamos seguros de que o povo britânico tenha tomado, por maioria, a melhor opção. No plano económico-financeiro, provavelmente não, como muitas vozes alertaram. Prova de que afinal – ao contrário do que muitos pensam – as votações não são apenas determinadas por esse tipo de razões: “No, it’s not the economy, stupid!”.

Mal ou bem, o povo britânico assumiu uma posição que alguns outros povos gostariam de assumir mas não podem. O povo grego, por exemplo. Decerto, gostaria, mais do que qualquer outro povo, de sair da União Europeia. Gostaria mas não pode. E essa é a prova maior da sua não soberania. É que esta não tem a ver sobretudo com o “querer”. Mais do que o “querer”, importa o “poder”. A Grécia, por muito que queira, não pode. A Grã-Bretanha quis (por vontade maioritária da sua população) e pode. E, provavelmente, quis porque pode.

Uma palavra final sobre o muito que se disse sobre o referendo que determinou o “Brexit” – nos dias seguintes, por insuspeitos “democratas”, ouvimos as mais espantosas considerações: que os referendos não traduzem a verdadeira vontade popular; que o facto de terem sido as gerações mais idosas a determinar o resultado final seria injusto para as gerações mais jovens, etc.

Fiquemo-nos por estas duas. Se há instrumento que permite aferir a vontade popular sobre um determinado assunto é o referendo – e, para quem discorde desta evidência, só lhe resta assumir que a vontade popular é irrelevante. Quanto à questão geracional, poder-se-ia aduzir que as gerações mais idosas, pela sua maior experiência de vida, serão, à partida, mais sábias – mas não é esse sequer o nosso argumento. Para nós, o que existe é sempre uma comunidade – constituída por mais jovens e menos jovens. Mais do que isso: por aqueles que já faleceram e por aqueles que ainda irão nascer. Respeitar a Democracia é para nós respeitar tudo isso.

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