Renato-Epifânio_PB-1-150x150RENATO EPIFÂNIO

Agenda MIL – Esta semana, Nova Águia 15 em Coimbra e Olhão:

01.07.15 – 18h30: Livraria Miguel de Carvalho.

03.07.15 – 19h00: Sociedade Recreativa Olhanense.

No dia 28 de Maio de 2015, publicou António Pinto Ribeiro (A.P.R.) no jornal “Público” um interessante artigo (“O mundo sem nós”), não apenas por aquilo que expressamente diz, como, sobretudo, por aquilo que, de modo mais tácito, denota.

Partindo da tese geral de que a “a presença do homem na Terra é a presença da destruição” (?!), A.P.R. vai depois focar de forma mais precisa o seu alvo, dizendo-nos que “a modernidade europeia que se impôs na colonização fê-lo decepando nas comunidades ameríndias a natureza do humano e a natureza da cultura”, falando, por fim, “daquilo que se designa como a ‘westernização’ do mundo”.

Reconhecendo-se que nada do que A.P.R. defende é propriamente original, nem por isso o referido artigo deixa de nos merecer uma indignada resposta. Sobretudo porque todo o discurso de A.P.R. assenta numa série de equívocos infelizmente cada vez mais disseminados na mundividência pós-moderna.

O primeiro desses equívocos – ou erros absolutos – é o de qualificar a presença do homem na Terra como, sem mais, “uma presença da destruição”. Essa asserção denota uma visão ingénua (para dizer o mínimo) da natureza, muito comum em certas correntes (por exemplo: nos ditos “partidos animalistas”), que é absolutamente falsa. Basta olhar para a natureza com olhos de ver para perceber que toda ela é intrinsecamente cruel e que, mais do que isso, tal é condição do seu próprio equilíbrio (por exemplo: na correlação entre as espécies).

É, pois, absolutamente falso que tenha sido a presença humana a trazer crueldade ou destruição, por mais exemplos que se possam aduzir de crueldade humana. Decerto, temo-los aqui em conta. De igual modo, é absolutamente falsa essa visão também ingénua (de novo, para dizer o mínimo) das comunidades colonizadas pelos povos europeus. Hoje, por exemplo, é mais do que sabido que os povos africanos já se escravizavam entre si antes dos portugueses terem chegado a África – e o mesmo se diga da América e da Ásia.

Ao dizermos isto, não pretendemos, decerto, “branquear” todo o processo de escravatura e de colonização. Não podemos, porém, é aceitar essas visões maximamente maniqueístas que ainda hoje infectam muitos livros de história. Tal como não foi a presença humana que trouxe crueldade e destruição à natureza, também não foram, em particular, os europeus que levaram crueldade e destruição aos “paraísos” africano, americano e asiático. Quanto muito, poder-se-á falar aqui de uma questão de escala – regressando ao exemplo já aduzido, o máximo que podemos dizer é que as autoridades portuguesas da época praticaram a escravatura (já existente, reiteramo-lo) a uma escala maior.

Decerto, como defende A.P.R. citando Lévi Strauss, “o mundo começou sem o homem e terminará sem ele”. Mas isso não significa que a presença humana não tenha sido e continue a ser, absolutamente considerada, um enriquecimento substantivo do próprio mundo. Apesar de toda a dose de destruição (em parte, decerto, evitável), o saldo continua a ser (muito) positivo. Pelos vistos, há quem preferisse um mundo sem humanidade – inclusive, sem línguas nem culturas (em particular, sem lusofonia…). Nós, não. À escala do universo – ou, pelo menos, da nossa galáxia –, a gesta humana no planeta Terra continua a orgulhar-nos.

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