Elogio (im)possível de São Paulo

Elogio (im)possível de São Paulo

0 758
RENATO EPIFÂNIO
São Paulo não é apenas a maior cidade brasileira – é a maior cidade lusófona, uma das maiores cidades do mundo. A sua população excede a própria população portuguesa e isso, por si só, impressiona: imaginar todo um país confinado a uma só cidade.

O primeiro impacto é pois, como não poderia deixar de ser, violento, mesmo para quem está habituado ao frenesim urbano.

O trânsito, em particular, exige uma paciência mais do que infinita. Há uma espécie de guerra civil entre automóveis e motociclos, com sucessivas provocações mútuas, e nem as mais desesperadas formas de diminuir o trânsito (conforme o número da matrícula, há dias em que não se pode circular, por exemplo) parecem ter efeito visível.

Subterraneamente, o metro lá vai conseguindo fazer circular as pessoas, mas a rede ainda precisa de se expandir muito mais. São Paulo é, também nesse plano, um excelente espelho do país que é o Brasil: um país imenso, um país continental, que parece estar ainda a meio caminho não se sabe ainda bem do quê.

Se há zonas de São Paulo que impressionam pela sua sofisticação e requinte, outras há que ainda chocam pela pobreza e mesmo pela miséria. O traço urbano é igualmente contrastante: há ainda imensas zonas degradadas, lado a lado com áreas que fazem de São Paulo uma das mais belas cidades do mundo, ainda que com um estilo algo indefinido. Sente-se, por um lado, um certo mimetismo em relação às grandes metrópoles norte-americanas, mas, por outro, alguma nostalgia da velha Europa.

Também nesse plano, São Paulo reflecte bem a encruzilhada em que o Brasil se encontra, face às várias possibilidades que se lhe deparam no plano geoestratégico – ou alinhar-se preferencialmente com o gigante do Norte (leia-se: Estados Unidos da América), ou circunscrever-se à América Latina, ou apostar mais numa ligação com Portugal e os demais países lusófonos.

Como sempre, a melhor escolha não será decerto uma escolha única, que implique a recusa de todas as outras. Decerto, o Brasil terá que ter sempre relações privilegiadas com os restantes países americanos, em particular com os países da América do Sul.

Estamos, porém, convictos de que isso não implicará uma menor aposta na ligação com Portugal e os demais países lusófonos. Apesar do gigantismo do Brasil, que lhe poderá dar a ilusão de uma auto-suficiência à escala global, os brasileiros mais lúcidos sabem que, a essa escala, juntos seremos bem mais fortes.

A esse respeito, a tomada de posse da Presidente reeleita, no primeiro dia deste ano de 2015, não terá sido o melhor sinal. Dilma Rousseff, manifestamente, privilegia as relações com os países vizinhos da América do Sul.

O candidato derrotado, Aécio Neves, seria decerto diferente, mas mais pela ligação aos Estados Unidos da América. Nenhum dos dois me pareceu defender uma via realmente pró-lusófona. A outra candidata derrotada, Marina Silva, teve um discurso mais auspicioso no que concerne à aposta na CPLP: Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, mas ainda sem grande eco. Veremos o que acontecerá nas próximas eleições.

Post-Scriptum – 31 de Janeiro, no Ateneu Comercial do Porto, às 17h: início de um Ciclo mensal de Conferências sobre o filósofo Sampaio Bruno, no centenário do seu falecimento, coordenado pelo MIL-Norte.