Entre Ariano Suassuna e Agostinho da Silva: uma certa Visão do Brasil...

Entre Ariano Suassuna e Agostinho da Silva: uma certa Visão do Brasil (III)

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RENATO EPIFÂNIO

RENATO EPIFÂNIO

Ao longo de toda a sua vida, com efeito, defendeu Ariano Suassuna uma visão do mundo em que as diferenças linguísticas e culturas poderiam e deveriam ser afirmadas – como ele próprio afirmou, numa entrevista concedida a Luiz Zanin Oricchio, publicada no Jornal “O Estado de São Paulo”, no dia 12 de Julho de 1997: “A verdadeira universalidade respeita as singularidades locais. Todos entram com sua parte, compondo a vasta sinfonia da cultura. Ela é feita de contrastes, que não são contrários, mas complementares. Do jeito como está proposta, a globalização é apenas a prevalência de uma cultura única, a norte-americana, sobre todas as outras. Só não vê esse facto quem não quer”.

Daí toda a sua obra, em particular no conhecido Movimento Armorial, onde procurou, sem preconceitos, valorizar a cultura popular, no que esta tinha de mais genuíno, enquanto expressão maior do próprio povo brasileiro – em assumida contra-corrente a quase a toda a chamada “arte contemporânea”, que, ao invés, tende, de forma consciente ou inconsciente, a fazer tábua rasa de todas essas diferenças linguísticas e culturais, afirmando um paradigma apenas artificialmente “universal”, como se pudesse haver uma arte linguística e culturalmente neutra.

De resto, não é por acaso que, no âmbito do Movimento Armorial, a cultura popular que mais se valorizou foi a cultura nordestina, por ser a mais genuína, a menos contaminada por esse paradigma apenas artificialmente “universal”. Na mesma referida entrevista, à pergunta se “o Nordeste teria melhores condições para resistir a uma possível pasteurização cultural”, respondeu: “É um paradoxo, mas talvez seja mais fácil engolir uma região desenvolvida, como São Paulo ou Rio [de Janeiro], do que o Nordeste. Aqui a resistência é mais forte, talvez exactamente porque a região seja comercialmente mais fraca. Marx cometia um erro grave ao dizer que os países mais potentes do ponto de vista económico produziriam uma arte mais rica. Não há relação directa entre as duas coisas…”

Dando de novo o salto para Portugal, perguntamo-nos se o nosso país, no quadro europeu, não poderia ter um papel análogo ao que Ariano Suassuna reconhece ao Nordeste brasileiro, no quadro do nosso país irmão. Sem que isso implique condenar-nos ao subdesenvolvimento económico e social, que esse menor desenvolvimento possa, pelo menos, ser motivo de análoga resistência a essa “pasteurização cultural”.

Em Portugal, como se sabe, foi também isso que Agostinho da Silva tentou, precavendo-nos, mesmo no auge da euforia europeísta – falamos dos anos oitenta – contra a dissolução das diferenças linguísticas e culturais. Já vinte anos após o seu falecimento, eis uma tarefa que não está ainda cumprida. Uma tarefa que nunca se cumprirá, plenamente.

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