Na ressaca da farsa grega…

Na ressaca da farsa grega…

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RENATO EPIFÂNIO

Como sportinguista incurável de que me orgulho de ser, estou mais do que habituado a falhar previsões. Mas nem por isso a esmorecer. Muito pelo contrário. Semana após semana, mês após mês, ano após ano, esfrego as mãos e digo para mim mesmo, convicto: “Para a próxima é que será”.

Não foi pois por qualquer dote divinatório que me pareceu desde o início evidente o desenlace do caso grego. Evidentemente, o Syriza teve que recuar em toda a linha, teve que negociar as suas propostas com a Troika.

Não, não com a Troika: apenas com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, ou seja, com os membros da Troika. Mas não com a Troika. Que não haja aqui qualquer confusão – e ai de quem ouse contestar isso mesmo. E sim: acabou por aceitar a extensão do Programa de Assistência…

O início deste ano de 2015 tem sido, de resto, um grande teste para os cartesianos que (ainda) acreditam que “o bom senso é mesmo aquilo que há de mais equitativamente distribuído pela humanidade”.

Começou com os atentados de Paris e a tese absurda de que “a liberdade de expressão deve ser absoluta”. Quando até qualquer criança com meia dúzia de anos sabe que isso assim não é, custa ver tantas pessoas adultas a defenderem-na.

Mas talvez não surpreenda: numa cultura que fala cada vez mais de direitos e cada vez menos de deveres…

Com as eleições na Grécia, entrou-se, porém, numa espécie de alucinação colectiva. Vi pessoas que sempre renegaram o valor do patriotismo, a afirmarem-se subitamente patriotas e a darem lições do mesmo a pessoas que, como eu, sempre se afirmaram como tal. E a darem as maiores cambalhotas geopolíticas – de um dia para o outro, por exemplo, Putin e a sua Rússia passarem a ser aliados estratégicos, quando, até há bem pouco tempo, a Rússia era a câmara de todos os horrores do século XXI: perseguição às minorias sexuais, às oposições políticas, etc.

Uma sugestão de borla a todos os políticos mal-amados deste mundo: se querem passar a ter boa imprensa na Europa, façam também um acordo com Aléxis Tsípras.

Decerto, na Grécia e nos restantes países europeus, há agora muita gente desiludida. Nestas últimas semanas, foi manifesto o propósito de alguns partidos, inclusive em Portugal, para cavalgar a onda de aparente radicalismo do Syriza, assim procurando iludir a sua própria vacuidade doutrinária.

Agora que essa onda se desfez, é tempo de, sem qualquer ruído mediático ou radicalismo proclamatório, ir preparando uma solução mais estrutural para a zona euro.

Temos consciência de que, com este acordo, não se resolveu o problema grego nem o problema de uma moeda que continua a favorecer apenas alguns países.