Semiótica socrática

Semiótica socrática

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RENATO EPIFÂNIOJosé Sócrates é bem o símbolo maior do Portugal que, nestas últimas décadas, viveu realmente acima das suas possibilidades – apesar de, face à evidência do fracasso da sua receita governativa, ter alegado que “seguiu apenas os ditames da União Europeia”.

O que mais choca em José Sócrates não é porém isso, nem sequer os traços de carácter que amiúde lhe apontam, nem sequer os crimes de que agora o acusam, apesar da sua extrema gravidade: “fraude fiscal, branqueamento de capitais e corrupção”.

Não. O que mais choca em José Sócrates é mesmo a sua falta de cultura. Lembro-me bem de, nas vésperas da sua vitória enquanto Secretário-Geral do Partido Socialista nas Eleições Legislativas de 2005, ter lido uma extensa entrevista sua ao Semanário “Expresso”, onde, a (des)propósito de quase tudo, Sócrates fazia uma citação. Sempre, já se adivinha, de “pensadores” da moda.

Indício maior não poderia haver da sua impreparação para o cargo de Primeiro-Ministro de um país como Portugal. Ainda assim, como se sabe, venceu as Eleições – e com maioria absoluta. Em abono daqueles que nele votaram, apenas se poderá dizer que o seu principal adversário (Pedro Santana Lopes), nesse plano, não seria muito mais dotado.

Quatro anos depois, o cenário, como se sabe, repetiu-se. Sócrates venceu de novo as Eleições e, frente a Manuela Ferreira Leite, foi evidente o massivo apoio que Sócrates, uma vez mais, recolheu da nossa classe mediático-cultural.

E isso, continuando a olhar para o retrovisor da nossa história mais recente, acaba por ser o mais chocante: a bênção que a nossa classe mediático-cultural deu a alguém destituído dos requisitos culturais mínimos para poder ser o Primeiro-Ministro de um país como Portugal.

Só deveria governar Portugal quem, com efeito, denotasse um conhecimento real da nossa cultura e da nossa história. Um país – sobretudo um país como Portugal – não pode ser governado como uma empresa.

Exigindo-se obviamente conhecimentos nas áreas da gestão, da economia e das finanças, antes de tudo o mais a um Primeiro-Ministro deve-se exigir um conhecimento real da nossa cultura e da nossa história. Tudo aquilo que José Sócrates manifestamente não tem.

Em seu abono, apenas se pode dizer que, nesse plano, Sócrates não é excepção. Realmente, os governantes de topo que temos tido nestas últimas décadas parecem desconhecer que Portugal é um país já com quase nove séculos de história. Os seus discursos públicos (quase) nunca o indiciaram – por ignorância ou, nalguns casos, por manifesto recalcamento.

E o mesmo se diga do “pensamento” hegemónico da nossa classe mediático-cultural – o que denota bem o quanto a sua força mediática é inversamente proporcional ao seu grau de cultura. Enquanto essa situação se mantiver, não há real mudança possível. Sócrates continuará a ser o paradigma.

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