Sobre o ensino dito “superior”

Sobre o ensino dito “superior”

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RENATO EPIFÂNIOQuando se fizer a autópsia desta III República cada vez mais moribunda concluir-se-á que um dos maiores erros – passe o eufemismo – cometidos foi no nosso sistema de ensino. A esse respeito, por muito que isso fira o nosso orgulho nacional, a Chanceler Merkel tem toda a razão, apesar de, no plano diplomático, não dever ter dito o que disse.

Enquanto alguém que tem tido a experiência do que é o ensino universitário – quer enquanto aluno, quer enquanto professor –, posso testemunhar que se tem verificado uma cada vez maior degradação da qualidade de ensino.

É verdade que o ambiente cultural também não ajuda, muito pelo contrário. Um dos fenómenos mais significativos é a perca de hábitos de leitura. Os alunos hoje, cada vez mais, lêem apenas fragmentos – nem já em papel, mas na internet. A sua capacidade de atenção é também cada vez menor. Nesta cultura de “videoclip” que se criou, sobretudo no Ocidente, a capacidade de atenção resiste muito pouco.

Com a massificação do ensino superior, deu-se o inevitável: o nível cultural médio dos alunos é cada vez menor; muitos deles têm extrema dificuldade em pensar e expressar-se, de forma oral e/ou escrita, de modo minimamente articulado. Como a mediocridade se tornou a regra, a exigência na avalização tende também, naturalmente, a baixar. Qual é o professor que pode correr o risco de chumbar uma turma inteira?

Com a subida das propinas e a sua crescente importância nos orçamentos universitários, quase que basta que o alune pague as suas propinas para conseguir o almejado diploma. O ensino superior tornou-se num negócio. E ai de que quem ponha em causa as sacrossantas “regras de mercado”. Cada vez mais, quem está no ensino superior tem que as aceitar. Por mais que denuncie o quão errado está o sistema. É mais um sintoma da nossa esquizofrenia colectiva: todos sabemos que o nosso sistema político não aguenta, todos nós sabemos que a União Europeia não tem futuro, e (quase) todos nós agimos como se isso não fosse verdade…

Ao termos, em nome de uma ilusória “igualdade”, quase que acabado com o ensino técnico (ou médio) e apostado tudo no ensino superior – como se ter um diploma universitário fosse um direito fundamental dos cidadãos – criámos um sistema disforme. Tal como qualquer sociedade se sustenta fundamentalmente na sua classe média, também isso deveria acontecer com o nosso ensino. O ensino superior deveria ser o que se denota pelo seu nome: um ensino verdadeiramente de elite, extremamente exigente e qualificado.

Quando se quer fazer tábua rasa da realidade, logo ela, porém, nos arromba a porta. Com a massificação do ensino superior, os diplomas universitários foram perdendo quase todo o seu valor, sobretudo após a reestruturação dos cursos para três anos. Hoje, o crivo já não está entre o ensino secundário e o ensino superior, mas entre o (ainda) dito ensino “superior” e as pós-graduações (mestrado e, sobretudo, doutoramento). Ter hoje uma licenciatura não significa (quase) nada. Sendo que isso acabou por desqualificar ainda mais o ensino técnico (ou médio).

Só um ensino verdadeiramente superior pode (re)qualificar todos os patamares do nosso sistema de ensino. Quando se destrói a cúpula, todo o edifício se afunda.