RENATO EPIFÂNIO

Lemos no jornal “Público”, de 25 de Abril de 2015, a notícia, com destaque de primeira página, de que “Pinto Ribeiro demite-se da Gulbenkian”, sobressaindo a seguinte declaração: “A Gulbenkian não pode continuar a fazer uma programação fechada ao mundo, que não tem uma dimensão contemporânea, internacional”.

Há quem, porventura, mais ingenuamente, fique impressionado com tamanha grandiloquência. Nós não. Ainda temos presente um artigo publicado no mesmo jornal, a 18 de Janeiro de 2013, significativamente intitulado “Para acabar de vez com a lusofonia”, onde Pinto Ribeiro qualificava a lusofonia como um “logro”, uma “forma torpe de neo-colonialismo”, a “última marca de um império que já não existe” – a que então respondemos em dois textos (2 e 9 de Fevereiro do mesmo ano).

Conhecendo de perto a hostilidade de Pinto Ribeiro à cultura lusófona em geral e à cultura portuguesa em particular, sabemos pois bem o que, no seu caso, se deve entender por uma “dimensão contemporânea, internacional”. Descodificando: trata-se de defender uma dimensão (ainda) mais anti-lusófona em geral e anti-portuguesa em particular.

Chegados aqui, haverá quem, igualmente de forma ingénua, saúde a notícia. Mas nós não, de novo. Se a Administração da Fundação Calouste Gulbenkian convidou Pinto Ribeiro “para coordenador-geral da programação – um cargo que até aqui não existia na Gulbenkian” (!), fê-lo, decerto, porque concordava com as suas ideias – ou, pelo menos, não tinha objecções de fundo quanto às mesmas. Nessa medida, nada de substantivo irá mudar na Fundação Calouste Gulbenkian.

Tivemos, de resto, um sinal recente disso. A revista “Nova Águia” apoiou institucionalmente uma Carta enviada pela família de Banha de Andrade, subscrita por quase meia centena de figuras ilustres da nossa cultura, em que se escreveu o seguinte:

“António Alberto Banha de Andrade (Montemor-o-Novo, 1915 – Lisboa, 1982) é o autor de uma obra de investigação e de interpretação da cultura portuguesa dos séculos XVI-XVIII, com tónica na história do pensamento filosófico e pedagógico, cujo conhecimento é de absoluta recorrência, sobretudo no que concerne às ideias da Renascença, da Segunda Escolástica e do Iluminismo, até ao consulado do Marquês de Pombal, em resumo, no que abarca toda a época do que designou por ‘Vernei e a Cultura do seu Tempo’. É igualmente reconhecido como uma figura de referência da História da Expansão Portuguesa.

Neste ano de 2015, comemora-se o centenário do nascimento desta insigne figura da nossa cultura – estando já confirmada uma Sessão de Homenagem Nacional, a decorrer no dia 5 de Junho, na Biblioteca Nacional de Portugal.

No âmbito destas Comemorações, julgamos que seria inteiramente oportuna a reedição da sua Obra Completa, que hoje se encontra quase por inteiro esgotada. Nessa medida, os abaixo-assinados solicitam à Fundação Calouste Gulbenkian que promova, através dos seus Serviços, essa reedição, ou que, em alternativa, financie, de forma substantiva, este nosso projecto, que conta com o total apoio da família.”

A lacónica resposta obtida, após muita insistência, foi esta: “Lamentamos informar que apesar da qualidade da iniciativa proposta, a mesma não está prevista no Plano de Atividades da Fundação Calouste Gulbenkian nem na sua correspondente programação orçamental.”

Ou seja, em suma: Pinto Ribeiro saiu mas as prioridades continuarão as mesmas.

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