Saudades de Colares

Saudades de Colares

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LUÍSA VENTURINI Não sei que me deu. Foi um daqueles arremessos com que a alma nos acorda e tive um acesso de saudades dos meus amigos de Colares. É verdade que já lá vai um bom par de anos desde a última vez que nos enchemos os corações de regalo com o prazer da nossa companhia. Mas também é verdade que talvez tivéssemos precisado de todo este tempo para refazer-nos da míngua em que ficámos depois da morte do Vicente e da Gwen. Dizem que o tempo cura. Curar, curar, curar mesmo, não lhe confiro essa benesse tão plena. É mais a outra, menos redentora, mas que permite que a cicatrização vá acontecendo, assim, num gerúndio infinito, que não infinitivo.

Bom… Adiante. O certo é que aproveitei o convite da alma e fui ter com eles que, por uma coincidência maravilhosa, também estavam acabados de chegar dos seus próprios percursos. A Berenice chegava de Espanha e o Afonso com a mulher, a Helena, aterravam de um congresso onde participaram, em Londres. Em casa da Clara, já sorumbava o Francisco na preparação da sua tese. A Cecília, o marido e a cria – que já nada tem de “cria”, pois estes anos acrescentaram-lhe envergadura, tanto de corpo como de espírito – com a sua disponibilidade generosa de sempre, apressaram-se a sair de Lisboa para ir ter connosco.

Só lamentámos que o Tomás e o Manuel estivessem numa maratona de trabalho, a acabar de resgatar a decoração art-déco de um restaurante, com data marcada para a inauguração. Sempre nos fazem falta aqueles dois, com o seu humor e gargalhada gostosa. Ainda me lembro do dia em que os conheci, há muitos anos já, chegavam eles numa buzinaria estrepitosa à casa de Colares, com aquele ar de quem sempre anima a festa com os confetti de uma alegria muito lavada e colorida.

Apesar da chuvinha doida que teimou em embaciar-nos os olhos e a paisagem, ainda conseguimos um remanso para um lanche ajantarado no jardim, com uns mimos que a Berenice levou e uns robalinhos grelhados de cortar a respiração. Até o Francisco, sempre tão comedido, se desenfreou com as guloseimas. Foi vê-lo pegar na guitarra e desafiar a Cecília que, passado todo este tempo, deve ter mandado os pejos para as urtigas e já nos solta aquela voz magnífica sem os rogos de antanho.

Claro que tivemos de ouvir Gershwin e Segóvia ao serão e claro que a Berenice dançou. Depois, foi aquela sarabanda de quartos para uns e sofás para outros, ia a noite tão alta que já mal se via. A sensação que todos tivemos naquele pequeno-almoço de café com pão (que só nos lembrava o Manuel Bandeira e pôs a Clara numa lengalenga desbragada) foi que não tínhamos conversado nem metade do que nos apetecia e que o fim-de-semana ia ser mirrado. E claro que foi. Mas, desta vez, selámo-nos numa promessa: antes deste ano acabar, iremos estar todos juntos outra vez.

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