Silêncio?

Silêncio?

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LUÍSA VENTURINISe calhar, por causa do ruído dos dias, dou comigo a pensar e a re-pensar não só no silêncio, mas, bem mais precisamente, o silêncio – o tal em cuja existência material eu não creio.

Lembro-me de uma discussão, sem dúvida assanhada por ruidosa, involuntariamente provocada por mim, apenas por ter pensado em voz alta: “De facto, não há silêncio!”

Foi quase um caos de reacções em que me falavam do silêncio da noite, dos campos, das esferas e eu convencida de que as noites, por muito solitárias que sejam, têm sempre o tinir eléctrico das luzes, o ronronar serrilhado dos bichos, o eco longínquo e difuso das vozes e que os campos têm o borbulhar vibrante, senão mesmo compulsivo, da vida dos múltiplos subsolos aos não menos múltiplos estádios dos éteres (e que a vida nunca é silenciosa – teremos, claro, de reportar-nos sempre à acuidade de quem ouve) e que as esferas, as tais longínquas, galácticas, titanicamente transcendentes, são mundos de explosão e contracção, que têm ou detêm a sua própria música – isto é, são completamente avessas ao silêncio.

Talvez que na maioria das vezes se confunda silêncio com calmaria. Mas, quem sou eu para dizer?

Mesmo quando me calo, o meu pensamento não pára e, até quando durmo, ronrona histórias difusas e ruidosas que talvez me sejam lembrança e som no dia seguinte.

Quase que me apetece dizer que o Silêncio, como o Amor e a Felicidade, é um filho dilecto desse Deus Maior que inventámos para conseguirmos suportar o nosso ruído – a ilusão que nos expande, o proto-poema.

Sim, estou a calcorrear uma escala de Si, obviamente. E neste paradoxo em que invoco o Silêncio, só consigo esta imagem que o prova fátuo.

Posso até ter a tentação de dizer: só há Silêncio e Luz. Mas sei que é mentira, porque a Ideia pairará na Luz, abençoadamente, rompendo, rasgando perenemente a hipótese do Nada.

E se não houver Ideia – perguntinha aleatória neste mundo de ruído – haverá Universo?

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