Um exemplo, a Linha do Oeste

Um exemplo, a Linha do Oeste

MANUEL SILVEIRA DA CUNHA

A CP e a REFER são empresas públicas, pagas com o dinheiro dos contribuintes devido aos seus colossais prejuízos. No entanto, a opacidade nestas empresas é a norma: se o leitor quiser saber quanto custam ao erário público e aos seus impostos os desmandos destas companhias, terá grandes dificuldades. A informação não é pública. No entanto, parece que a CP receberá 21 milhões de euros e a REFER 53.8 milhões no ano de 2014.

A CP lida com a gestão do tráfego e material circulante e a REFER, fundida agora com as Estradas de Portugal, gere a rede. A gestão destas companhias é proverbialmente péssima. Incapazes de modernização interna ou de utilizar os seus recursos e quadros, os principais motores destas empresas têm sido, em primeiro lugar, o factor medo e irresponsabilidade. Em vez de inovarem e de apostarem em desenvolvimento interno, que poderia levar a responsabilização no caso de surgirem problemas ou acidentes, as companhias apostam sistematicamente na chamada contratação externa, que na ferrovia e material circulante é astronomicamente cara, lavando as mãos em caso de problemas. O segundo motor da gestão destas empresas são as negociatas, das quais o escândalo com sucateiras, como a de Manuel Godinho, é apenas uma ponta do iceberg. Muitas decisões destas empresas nada têm a ver com serviço público ou optimização dos custos ao erário público. Ineficiência, má gestão, investimentos financeiros desastrosos com o dinheiro de todos nós, e fora do negócio das companhias, são a norma e não a excepção, como provam os casos dos desastrosos swaps em que gestores incompetentes e amadores foram enganados ou se deixaram alegremente enganar por bancos pouco escrupulosos.

Chegamos ao exemplo da Linha do Oeste, oito comboios de passageiros de Lisboa até às Caldas e apenas dois comboios por dia até à Figueira da Foz, comboios que atingem um recorde de velocidade espantosa: uma viagem da Figueira a Lisboa, sem atrasos, fica por cinco horas e quatro minutos. Em 2010, uma viagem de comboio ficava por 700 euros aos cofres do contribuinte; e cada passageiro, mesmo aqueles que só usavam percursos muito curtos, custava dez euros à CP, não se sabendo quanto custaria à REFER, apenas se podendo inferir que custaria muito mais, uma vez que os custos de conservação das estruturas e manutenção da linha são obrigatórios, por razões de segurança, e ainda são mais elevados. Realça-se ainda o facto de ter desaparecido da Linha do Oeste a circulação de mercadorias, quase só devida à Valouro, que deixou de utilizar a linha descendente. Um especialista em ferrovia do Instituto Superior Técnico afirmou que sairia muitíssimo mais barato fechar a linha do Oeste e pagar o táxi aos passageiros restantes.

Hoje em dia, com oito comboios diários, o último a sair de Lisboa pouco depois das seis da tarde, a Linha do Oeste não serve para nada nem ninguém. Os comboios andam frequentemente vazios, ascendendo a poucas dezenas os passageiros de cada viagem. A Linha do Oeste tem os serviços reduzidíssimos, não há informação, não se sabe se os comboios andam atrasados e as estações são fantasmagóricas e perigosas. O plano da troika previa o encerramento total ou parcial da linha, a começar pela zona entre Caldas e Figueira, onde ainda há menor circulação. Continuamos a enterrar milhões dos nossos impostos num monumento à ineficiência e à nebulosidade. A Linha do Oeste, hoje em dia, apenas serve os dirigentes das companhias e os negócios de alguns, apoiados pelos lunáticos do costume, os amigos dos comboios e os autarcas locais, que têm a nostalgia de gastar os milhões dos outros para satisfazer os seus caprichos pessoais. Infelizmente, é apenas um exemplo entre muitos.

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