2015: o ano de todas as dúvidas (e algumas certezas)

2015: o ano de todas as dúvidas (e algumas certezas)

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Prever o que nos reserva 2015, num mundo que evolui a uma velocidade estonteante, é quase como ir à bruxa. Mas algumas tendências parecem ganhar consistência e permitir uma aproximação prospectiva.

O futuro da União Europeia está na corda bamba e no ano que começa poderemos assistir a uma mudança drástica de rumo. Em Portugal, apesar de uma recuperação assinalável, persistem as nuvens negras – sobretudo na demografia, que aponta para um decréscimo populacional como não víamos desde o século XIX.

A Grécia caminha a passos largos para o abismo extremista da esquerda, enquanto a Alemanha se prepara (também) para entrar em recessão.

Os avanços tecnológicos permitem acalentar as maiores esperanças, sobretudo na Medicina, mas o domínio crescente da máquina sobre o Homem suscita dúvidas éticas ainda difíceis de equacionar. Seja o que Deus quiser…

Europa: ou vai ou racha

para EUROPAO ano que agora começa vai ser decisivo para o futuro da União Europeia: querem os europeus manter o actual modelo – ou terá chegado a hora de mudar de rumo? Mesmo a abrandar, a economia da China continua a desenvolver-se rapidamente e a dos Estados Unidos cresceu 5% no último trimestre do ano que finda. É duvidoso que os europeus queiram continuar a tolerar um sistema político cujos resultados económicos são péssimos.

Os burocratas de Bruxelas já começam a tremer face ao possível colapso de uma estrutura que levou décadas a construir (e cujo “tacho” é magnífico). O Banco Central Europeu e a Comissão Europeia já anunciaram que pretendem injectar dinheiro na economia de forma a diminuir o desemprego e a estimular o crescimento.

Mas os níveis de participação no processo democrático estão mais baixos do que nunca. Nas últimas eleições legislativas em Portugal, quase metade dos eleitores não compareceram nas urnas. Em França, Hollande está em vias de ficar para a História com a dúbia honra de ser o presidente mais impopular da era moderna, talvez até mesmo de sempre.

No Reino Unido, o poderoso Partido Conservador passou de três milhões de militantes em 1950 para apenas 200 mil em 2014. Os europeus votam menos, participam menos, estão cada vez mais fartos da falta de líderes competentes e com a capacidade política que, em tempos, levou a Europa ao topo do mundo.

Em 2015 celebram-se o aniversário dos 50 anos da morte de Winston Churchill e os 200 anos do nascimento de Otto Von Bismark: quando comparados com a liderança que temos hoje, os políticos modernos não ficam bem na imagem.

Será que é desta que a Europa volta a crescer? Ou será que, depois de anos de austeridade, as soluções propostas são já escassas e tardias?

Portugal: nuvens escuras ou céu limpo?

para PORTUGALNa sua mensagem de Natal, o primeiro-ministro fez um apelo, ligeiramente desajustado tendo em conta a data, ao voto no seu partido. Pedro Passos Coelho enfrentou quatro anos difíceis e agora pede aos portugueses que vejam como as “nuvens negras” se estão a dissipar. Já o boletim meteorológico da oposição continua fixo em “tempestade”.

O certo é que, mesmo registando um crescimento ainda anémico, Portugal é dos países da Europa com melhores resultados económicos nos últimos meses. O desemprego baixou, as exportações aumentaram e o PIB cresceu mais de 1%.

O anúncio de mais investimento reforça a esperança de Passos de conseguir reforçar a situação económica a tempo de derrotar António Costa no embate eleitoral de 2015. Sufrágio cujo resultado continua em aberto.

Mas muitas reformas estruturais importantes não foram feitas, Portugal continua a perder jovens qualificados a uma velocidade assustadora e a União Europeia continua famosa por se perder dentro da sua própria burocracia bizantina.

Por vezes, a luz ao fundo do túnel é apenas o comboio a vir na nossa direcção…

Nação envelhecida, não imortal

para NAÄ«O ENVELHECIDACatastrófica é a situação demográfica portuguesa, sobre a qual os nossos políticos pouco estão a fazer. Nasceram menos de 90 mil crianças este ano, muito menos do que o necessário para manter a nossa população e a Segurança Social.

2015 é apontado como o ano em que a população portuguesa, globalmente considerada, vai começar a diminuir: fenómeno que não sucede desde o século XIX. Um infeliz marco histórico para a nossa Nação quase milenar.

A crise demográfica não é apenas uma questão cultural. Um estudo do INE revela que, em média, os jovens portugueses gostariam de ter 2 filhos, um valor perfeitamente sustentável a longo prazo, mas acabam geralmente ou por apenas ter um, ou pior, nenhum.

Apenas 8% dos jovens não desejam ter filhos, por opção. As condicionantes económicas são o principal problema demográfico.

Ter filhos, pura e simplesmente, continua a ser uma opção que acarreta um castigo por parte do Estado e das empresas, não uma recompensa.

Este será o ano em que o Governo, seja ele de que partido for, terá de investir fortemente na inversão este ciclo, sob pena de Portugal ficar preso numa crise estrutural da qual apenas poderia sair dentro de muitas décadas.

António Barreto avisou, este ano, que Portugal enquanto Nação pode deixar de existir nos moldes actuais, caso continue neste ciclo descendente. Caso estes números se mantenham, Portugal chegará a 2050 com apenas 6 milhões de habitantes, ficando cada vez mais irrelevante dentro da lusofonia e da estrutura de poder mundial.

O PREC grego

para PRECA extrema-esquerda na Grécia já afia as facas, preparando-se para o que pode vir a ser o primeiro embate eleitoral do novo ano. No sufrágio (indirecto) para a Presidência da República, para haver um vencedor exige-se o voto de 180 dos 300 deputados.

Como não houve um vencedor claro nas eleições presidenciais realizadas a 29 de Dezembro , o país irá a eleições legislativas antecipadas, e neste caso tudo indica que a esquerda radical poderá estar perto da vitória.

Mas ainda que o actual governo consiga os deputados necessários à eleição presidencial, os analistas consideram que o “acordo com o diabo” exigirá na mesma eleições legislativas em 2015.

Infelizmente, parece que a Grécia está condenada a ser uma infeliz cobaia nas “experiências” de uma extrema-esquerda de sabor terceiro-mundista. Nos planos da coligação radical estão a saída do Euro e da União Europeia, o estabelecimento de uma economia socialista e o não pagamento da enorme dívida soberana grega. O resultado deste PREC grego será, inevitavelmente, a socialização da miséria, com o seu habitual cortejo de instabilidade, violência e caos.

Sobre Atenas acastelam-se nuvens escuras, muito escuras.

Alemanha junta-se ao clube da crise

para ALEMANHA2015 promete ser um ano desagradável para os austeros e convencidos alemães. Apesar de o país de Merkel ter assumido um papel quase imperial dentro da estrutura da União Europeia, a generalidade dos observadores conclui agora que a Alemanha é um gigante com pés de barro.

Após anos de triunfalismo, a Alemanha desliza também para a recessão. As exportações diminuíram, a economia estagnou (até Portugal cresceu mais!), está à beira da recessão e o desemprego voltou a subir. Mesmo ao virar da esquina espreita o perigo da deflação e o povo começa a revoltar-se contra a imigração descontrolada: um tipo de protesto que os arrogantes alemães diziam que não aconteceria no seu país.

Angela Merkel, qual Kaiser Guilherme nas vésperas da Grande Guerra, prefere ignorar os factos e continua a seguir uma política de austeridade feroz, mantendo a prioridade nas finanças e desprezando a economia real. Em 2015, o orçamento alemão registará um excedente, mas isso não é sinónimo de uma nação economicamente saudável. O Kaiser só se apercebeu dos seus erros em vésperas do colapso do Império Alemão; esperemos que Merkel tenha uma noção da realidade mais apurada.

Tecnologia: o conhecimento em saldos

para TECNOLOGIAEm tempos, o trabalho de apenas mapear o código genético humano custou vastos milhões de dólares e anos de trabalho. Hoje, qualquer laboratório de segunda linha o consegue fazer. Em 2014, a vida de uma criança já foi salva graças a esta tecnologia: o mapeamento permitiu descobrir uma vacina que a salvou de uma doença rara e pouco compreendida.

Compreender, ao mais ínfimo detalhe, como o nosso organismo funciona é uma conquista da Medicina que vai permitir desenvolver melhores soluções para curar doenças até agora sem cura. Mas não irá parar aqui.

Prevê-se que este será o ano em que a manipulação genética dos seres humanos passará de mera ficção científica para uma verdadeiro serviço comercial acessível aos mais abastados. Afinal, se se compreende o código, e se se pode mudar o código, porque não alterar o código de um bebé logo à nascença, para eliminar possíveis doenças ou deficiências?

A ciência tem, agora, o poder da criação e manipulação da vida, e vai colocar esta habilidade à venda. Este conhecimento e este poder, ancestralmente atribuídos em exclusivo à Mão Divina, estarão em saldos em 2015, com todos os benefícios e malefícios que daí poderão advir.

Máquina: tomei a liberdade de pensar por si

para MµQUINAEm 2015, a tecnologia será mais “inteligente” do que nunca. A Google admite que este vai ser o ano em que os carros já poderão circular sem condutor: os primeiros protótipos já funcionam. Os nossos telemóveis já começaram a falar connosco e novos desenvolvimentos no ramo da inteligência artificial permitirão lançar verdadeiras secretárias de bolso, com uma capacidade cada vez maior para tirar notas, procurar informação e lembrar-nos informação.

Muitos utilizadores já ficaram algo assombrados quando o seu telemóvel os avisou de que o voo que iam apanhar estava atrasado. Os computadores vão começar a conseguir antecipar as nossas necessidades, vão começar a “conhecer-nos”.

Mas não pára aqui. Mais profissões vão estar sob ataque este ano. Já estão a ser desenvolvidas máquinas que substituem os caixeiros do supermercado, máquinas que servem à mesa, máquinas que servem como bagageiros nos hotéis.

Nos Estados Unidos já estão em operação máquinas que levam comida e material de escritório aos funcionários das empresas. Os robots de limpeza doméstica prometem tornar-se ainda mais capazes de manter uma casa limpa, e as empresas de entregas querem colocar ‘drones’ voadores ao seu serviço.

A ficção científica estará mais viva que nunca neste novo ano mas, infelizmente, também poderá causar muito desemprego. Nada na vida acontece sem consequências.

A previsibilidade do imprevisível…

Prever o resultado do mais recente conflito no Médio Oriente é quase como ir à bruxa. Em 2011, o regime sírio de Assad parecia condenado, hoje é um aliado regional no combate ao Estado Islâmico, que parece que vai sobreviver. O Estado Islâmico foi a infeliz surpresa do ano que finda, e ninguém conseguiu prever a sua rápida ascendência.

Modas no Facebook e redes sociais vão continuar, embora não se consiga ainda saber exactamente do que é que as pessoas se vão lembrar desta vez. O BES colapsou em 2014, no ano anterior era considerado o melhor banco português.

E José Sócrates foi preso, algo que há escassos meses pareceria inimaginável. Se ele terá colegas de profissão a fazer-lhe companhia em 2015, apenas os investigadores judiciários saberão.

Como diz a sabedoria popular, a vida continua. Feliz Ano Novo.