JOSÉ ALMEIDA

“Leão dos Mares”, “Marte Português”, “César do Oriente”, o “Grande”, ou o “Terrível”. Muitos foram os cognomes pelos quais Afonso de Albuquerque ficou conhecido e ganhou fama junto dos seus aliados e inimigos. Amado por muitos e odiado ainda por mais, conquistou a pulso o respeito e veneração de todos aqueles que o conheceram, revelando-se uma das personalidades mais fascinantes da sua época. 

Muitas das análises historiográficas levadas a cabo sobre a vida e obra de Afonso de Albuquerque retrataram esta importante personalidade da nossa História como um mero agente do processo expansionista português conduzido em território asiático. No entanto, este Vice-Rei da Índia representou, em termos estratégicos e político-militares, um exemplo maior do homem de Estado renascentista. Não será demais relembrar que, durante o mesmo ano em que Nicolau Maquiavel iniciou a redacção do seu célebre tratado “O Príncipe”, já Afonso de Albuquerque superava no terreno os ensinamentos teóricos daquele célebre pensador.

“Afonso de Albuquerque: Corte, Cruzada e Império”, publicado em Maio deste ano pela Temas e Debates / Círculo de Leitores (brochado, 376 páginas, 18,80 euros), insere-se na actual tendência historiográfica associada aos estudos biográficos. A sua autora, a historiadora Alexandra Pelúcia, levou a cabo um notável trabalho de sistematização do venturoso percurso de Afonso de Albuquerque na Ásia, primeiro como Capitão-Mor do Mar da Arábia e, posteriormente, como Governador do Estado da Índia. Analisando diversas fontes históricas e outros estudos lavrados acerca desta figura, a autora procurou dá-la a conhecer de uma forma integral, preocupando-se com a análise das suas origens familiares e sociais, personalidade, modo de inserção da sociedade cortesã, as trajectórias pré-asiáticas, questões religiosas e políticas, entre outros aspectos.

Um dos pontos mais interessantes que ressaltam da leitura deste livro é a actualidade da sua narrativa. A figura de Afonso de Albuquerque ergue-se diante do autor não só como a proa e mastro de um Povo, mas de toda uma Civilização. Pensar na acção portuguesa na Ásia e nos mares do Índico leva-nos a reflectir sobre a ascensão e queda de Portugal e, consequentemente, da Europa. Nesse sentido, Afonso de Albuquerque marca, de uma forma inquestionável, o período de glória de um Ocidente que soube superar o resto do mundo, levando a nossa luz interior às terras da luz exterior.

Conforme nos revela Alexandra Pelúcia, a grandeza e a natureza dos feitos de Afonso de Albuquerque são susceptíveis de serem interpretados como o resultado de uma mitificação e glorificação histórica. No entanto, “Afonso de Albuquerque: Corte, Cruzada e Império” revela-nos, pormenorizadamente, a directa correlação existente neste caso entre mito e realidade histórica. Conforme tão bem descreveu Miguel Torga no seu poema “Afonso de Albuquerque”, o nosso Vice-Rei serviu a Pátria, o Rei e o Povo, contra a vontade de muitos que se lhe opunham por mera inveja. Porém, a unanimidade que não encontrou em vida conquistou-a após a sua morte, tanto em Portugal, como nas comunidades de descendência portuguesa, em particular em Goa e Malaca, onde a sua imortal presença se mantém, de um modo inabalável, desde o século XVI.

“Albuquerque terribil”

Em 16 de Dezembro próximo completam-se 501 anos sobre a morte do “Terrível”: “Albuquerque terribil”, um daqueles “em quem poder não teve a morte”, como lhe chamou Camões (Os Lusíadas, Canto I, est. 14). Em 2015, na passagem dos cinco séculos sobre a data, o Governo português ignorou ‘olimpicamente’ Albuquerque. Para além de uma sessão cultural no antigo Casino da Ericeira e de alguns (raros) artigos de jornal, nomeadamente n’O Diabo, apenas teve relevo o colóquio, acompanhado de exposição, realizado na Biblioteca Nacional, com apoio do MIL (Movimento Internacional Lusofóno), do Arquivo da Torre do Tombo e da SHIP (Sociedade Histórica da Independência de Portugal). Na organização teve papel importante o nosso colaborador Renato Epifânio.

Afonso de Albuquerque foi o principal construtor do Estado Português da Índia. Nomeado governador em 1509, conquistou Goa, onde instalou a capital, em 1510, Malaca em 1511 e Ormuz em 1515, fazendo do Oceano Índico um “mar português”.

Famosa ficou a sua resposta dirigida aos enviados do Xá da Pérsia que lhe exigiam o pagamento de um tributo após a conquista de Ormuz: “Mandou trazer das naus pelouros de bombardas, bestas, e espingardas, e bombas de fogo: e que dissesse ao rei, que mandasse tudo aquillo ao capitão do xeque Ismael, porque aquela era a moeda, em que el-rei de Portugal mandava aos seus capitães, que lhe pagassem as pareas daquele reino, que estava debaixo do seu senhorio, e mando.”

Afonso de Albuquerque organizou a administração da Índia portuguesa, tendo incentivado o casamento de portugueses com nobres indianas. Foi ainda ele quem rompeu com a brutal tradição local que obrigava a matar as viúvas nas piras funerárias dos maridos.

Chegado à barra de Goa, no regresso de Ormuz, recebeu a informação de que fora substituído no governo da Índia por Lopo Soares de Albergaria, seu velho inimigo.

Escreveu ao rei D. Manuel I: “Mal com os homens por amor del Rei, e mal com El Rei por amor dos homens, bom é acabar”. E morreu.

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  • Teixeira.net

    Não admira que estes homenzinhos de hoje se incomodem com aqueles de outrora.
    Pois enquanto eles com sacrifícios imensos (“Em perigos e guerras esforçados, mais do que permitia a força humana…” como diz Camões), construíam o Império a mando de Cristo, estes, desgraçam o pouco que sobrou a mando de estrangeiros!
    Pode-se lutar contra homens mas não contra Cristo. Chegará pois o dia em que tudo se esclarecerá.

    Uns choraram os seus heróis, santos, mártires ….
    Outros lembrar-se-ão apenas dos traidores,…o dinheiro lhes bastava…