O julgamento da História – para que a memória não se apague

Miguel Mattos Chaves

Foi um dos mais emblemáticos combatentes de sempre da causa da liberdade. Conheceu as prisões e os trabalhos forçados nos campos soviéticos e teve a coragem de denunciar a ditadura comunista numa obra que é um libelo acusatório contra um regime que assassinou e violentou a consciência de milhões de pessoas em todo o mundo. 

Convém lembrar um escritor russo que se notabilizou pela sua resistência ao Comunismo e que, por tal facto, foi considerado proscrito pela “cultura” vigente em Portugal: Alexandre Soljenitsin. Apesar de a Rússia de hoje nada ter a ver com esse regime e ser nos nossos dias um país Cristão-Ortodoxo, goste-se ou não e critique-se ou não a sua actual liderança, convém lembrar um vulto da sua história que combateu o regime comunista que aterrorizou a Europa entre 1945 e 1991.

Soljenitsin nasceu na Rússia, pátria do regime comunista instalado em 1917 pela Revolução de Outubro. Nesta Revolução de Outubro, os bolcheviques tomaram o poder pela força, derrubando o regime Monárquico do Czar Nicolau II. Fuzilaram o Czar, a sua mulher, os seus filhos, os seus criados e respectivas famílias. A Rússia foi progressivamente anexando outros países até se tornar, após a II Guerra, na cabeça de um bloco – a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

O movimento bolchevique, sendo no início um movimento de emancipação do povo russo que apregoava a fraternidade universal, cedo transformou o Estado russo num Estado todo-poderoso, que passou a praticar a discriminação sistemática de grupos sociais ou nacionais, recorrendo a deportações em massa e, com muita frequência, a assassínios de grande parte da população que se opunha aos bolcheviques.

Esta mudança na forma de organização de poder na Rússia deu origem a um confronto ideológico entre os Países Ocidentais e os Países do Leste europeu. Conflito que se foi agudizando, mas que teve um breve intervalo com a aliança estabelecida para derrotar as potências do Eixo – Itália, Alemanha, Japão.

Após o terminus da II Guerra Mundial, o conflito político-ideológico reacendeu-se, sobretudo por causa das intenções imperialistas da Rússia. Esta conseguiu anexar metade dos países europeus, os situados a Leste, e pretendia expandir a sua influência e domínio político-militar ao resto do Mundo. Queria impor o sistema comunista como sistema de governo generalizado.

Do outro lado, os países ocidentais, liderados pelos EUA, começaram a defender-se dessas intenções e a contra-atacar nos domínios político, militar e ideológico. Nascia assim a denominada Guerra-Fria (que provocou milhões de mortos em África e na Ásia) que iria acabar em 1989 com a queda do muro de Berlim.

O confronto deu-se entre duas visões: a visão capitalista, defensora de um mundo organizado em torno das ideias de liberdade política e da livre iniciativa privada, temperada pelo Estado, e a visão comunista defensora da liderança das massas pelos “esclarecidos guias do povo” através de uma economia centralizada e planificada, onde o direito à propriedade pertencia apenas ao Estado.

A luta ideológica que marcou o século XX deu-se entre três ideologias: o Comunismo, por um lado, e o Fascismo e o Nazismo, pelo outro. Saiu vencedora da II Guerra a primeira, aliada às teorias de mercado e de democracia. Saíram derrotadas as segundas, cujos expoentes únicos e máximos foram a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler. Na II Guerra, a Rússia Comunista primeiro aliou-se aos Nazis, após ter assinado um Pacto de não-agressão e de aliança com os Nazis de Hitler – Pacto Ribentrop-Molotov – que dividia a Polónia em duas partes. Esta aliança terminou quando a Alemanha invadiu a Rússia.

Após esta invasão, a Rússia Comunista aliou-se, por mera necessidade de defesa do seu território, aos países do bloco ocidental. E como a Rússia se juntou aos vencedores da II Guerra, saiu ela também vencedora e aproveitou esse facto para escamotear as atrocidades que o seu regime praticava contra os seus próprios cidadãos e contra terceiros, naturais de outros países. Isto com a complacência dos países ocidentais, seus aliados de ontem.

Os crimes do Comunismo

Qual a diferença entre os campos de extermínio, os campos de concentração Nazis e os Gulag Comunistas descritos por Soljenitsin no seu livro “Arquipélago de Gulag”? A resposta é óbvia para os estudiosos: nenhuma. Tanto nos campos Nazis como nos campos Comunistas se assassinaram pessoas, se forçaram pessoas a trabalho escravo.

O que diferencia, em termos de crimes contra a humanidade e contra os Direitos do Homem, a actuação de homens como Eichmann, Hess, Heydrich, Goebells ou Hitler de homens como Lenine, Estaline, Trotski, Mao Zedong, Fidel Castro ou Agostinho Neto? Esta comparação é profundamente incómoda para os Comunistas, que reagem a ela como se de um insulto se tratasse. Mas factos são factos. Esta comparação é incómoda porque é verdadeira e eficaz.

Os dirigentes do Partido Comunista Português nunca falaram dos mais de 100 milhões de mortos provocados pelo Comunismo. Nunca admitiram que isso tivesse acontecido. Isto apesar de se saber que foram mortas, por fuzilamento, enforcamento, espancamento, gás, veneno ou por acidentes provocados, tais como a “grande fome”:

  • Na URSS – 25 milhões de pessoas
  • Na China – 65 milhões
  • No Vietname – 1 milhão
  • Na Coreia do Norte – 2 milhões
  • Na Europa Oriental – 1 milhão
  • Na América Latina – 150.000
  • Em África – 1,7 milhões
  • No Afeganistão – 1,5 milhões de pessoas
  • e ainda mais de 10.000 pessoas mortas, noutros países.

Os Partidos Comunistas continuam a negar estes factos, apesar de os seus dirigentes saberem que é a mais pura e cristalina das verdades. Se há coisa em que os dirigentes comunistas são especialistas, é em informação. Portanto, é absolutamente falso que ignorem estes factos. E quando confrontados directamente com esta verdade irrecusável, refugiam-se em palavras como “desvios” ao socialismo e “erros” cometidos em seu nome, para tentarem justificar o injustificável.

Os dirigentes do Partido Comunista Português sempre souberam das grandes purgas, do Grande Terror, dos massacres praticados, das execuções de pessoas, dos desaparecimentos provocados, dos raptos organizados pelas polícias políticas comunistas e os crimes praticados pelo Comunismo contra a Cultura, como por exemplo:

  • A destruição de centenas de Igrejas em Moscovo;
  • Ceaucescu da Roménia destruiu o coração histórico de Bucareste;
  • Pol Pot do Camboja destruiu a Catedral de Phnom Penh e abandonou os templos de Angkor;
  • Mao e os seus guardas vermelhos destruíram tesouros inestimáveis da China.

Os crimes cometidos pelos Nazis (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães) provocaram cerca de 57 milhões de mortos, contando com a guerra que provocaram na Europa; por isso foram julgados e punidos no julgamento de Nuremberga. O Comunismo provocou mais de 100 milhões de mortos; os Comunistas nunca foram julgados e nunca foram punidos.

E, no entanto, os crimes do Comunismo estão descritos, nomeadamente no “Relatório Secreto” de Kruschov, que sucedeu a Estaline; no Livro Negro do Comunismo, escrito por Courtois, Werth, Panné, Paczkowski, Bartosek e Margolin; nas Narrativas de Kolima, escritas por Varlam Chamalov; nas Memórias de D. Vitkovski, E. Guinzburg e Adamova-Sliozberg, bem como em documentos oficias que agora têm vindo a público, como os da autoria de Sudrab-Latsis, Krilenko (este último foi o principal Procurador do Estado Soviético), Vichinski, seu sucessor no cargo, e de alguns dos seus juristas, de que se destaca Averbach; e ainda na vasta obra de Alexandre Soljenitsin.

Isto para não falar dos ficheiros secretos, hoje alguns deles públicos, das polícias políticas que actuavam nos países comunistas e fontes das organizações internacionais. Contra factos não há argumentos.

O homem

Alexandre Soljenitsin era um jovem físico e matemático russo. Foi Capitão de Artilharia do Exército Vermelho da União Soviética, a pátria do regime Comunista. Em Janeiro de 1945 escreveu uma carta a um amigo em que se insurgia contra algumas práticas, nomeadamente contra os privilégios existentes no seio do Exército Vermelho e contra a conduta do Estado em relação à II Guerra Mundial. Tal bastou para que fosse preso. Sem ter direito a qualquer julgamento, viu-se condenado a oito anos de prisão e mais quatro anos de exílio.

A partir da altura da sua prisão pelo regime, passou a dedicar-se apenas à Literatura. Estes anos de prisão e os subsequentes de exílio, numa aldeia soviética afastada dos grandes centros, permitiram-lhe conhecer muitas pessoas que se encontravam nas mesmas circunstâncias, convivência que influenciou em muitos aspectos a sua obra literária.

Data desta altura a sua reflexão sobre as suas posições ideológicas, que o conduziu à revisão das mesmas. Tais mudanças na sua forma de analisar e pensar o mundo, e na sua forma de analisar o Comunismo, viriam a influenciar de forma profunda toda a sua obra literária.

Em 1962 publicou “Um Dia na Vida de Ivan Denisovitch”, com o acordo cúmplice de Krustchev, que prosseguia então uma política “de desanuviamento” em relação ao Ocidente, e a quem convinha que se criticasse o seu antecessor Estaline, para solidificar a sua própria liderança. Mas foi sol de pouca dura, dado que, terminado o período da política de desanuviamento, e dado o inesperado sucesso de vendas do seu livro, as autoridades soviéticas acabaram por proibir a venda da obra. Então Soljenitsin começou a escrever na clandestinidade e a publicar os seus livros nos países Ocidentais, livros que eram depois distribuídos clandestinamente na União Soviética.

Escreveu depois “O Primeiro Círculo”, o “Pavilhão dos Cancerosos” e “Agosto de 1914”. A publicação destas obras teve como consequência a sua expulsão do Sindicato dos Escritores Russos, impedindo-o de ganhar a sua vida como escritor. Mais tarde, em Setembro de 1973, a polícia política soviética raptou Elizavieta Voroniánskaia, a amiga do escritor que lhe servia de dactilógrafa, e que tinha passado à máquina o manuscrito do “Arquipélago de Gulag”. Pretendiam obter, pela força, a confissão de Elizavieta sobre onde se encontrava o manuscrito da obra, para assim o destruírem. Esta acabou por confessar.

Com sentimento de culpa, Elizavieta acabou por se suicidar. Ao saber do sucedido, o escritor mandou imediatamente publicar a sua obra, o que aconteceu em 1974. Como consequência da publicação deste livro, Soljenitsin foi expulso da União Soviética e foi-lhe retirada a nacionalidade russa.

Não foi morto, ou de novo obrigado a trabalho escravo nos Gulag, porque já era um autor muito conhecido em todo o Mundo e isso seria muito inconveniente para os dirigentes comunistas. Na verdade, Soljenitsin tinha ganho o Prémio Nobel da Literatura em 1970, e isso fazia dele alguém que não podia ser eliminado sem provocar fortes reacções internas e internacionais.

Assim viveu um Homem que de início, e de boa-fé, acreditou que o Comunismo poderia funcionar. Que acreditou que o Comunismo poderia ser um motor de defesa dos mais fracos e desprotegidos e que o Comunismo poderia ser a melhor forma de governar bem os povos. Mas que rapidamente se apercebeu da barbárie dos dirigentes comunistas, do terror que instalaram, da perseguição que fizeram àqueles a quem diziam querer defender.

E assim se desencantou com o regime comunista e seus dirigentes, deixou de acreditar, e finalmente combateu um regime que assassinou e violentou a consciência de milhões de pessoas em todo o mundo.

“Arquipélago de Gulag”

Em 509 páginas, de leitura obrigatória para todos aqueles que prezam a liberdade de expressão e de associação, esta obra descreve-nos em detalhe as culpas do regime comunista e as idiotices de alguns aliados involuntários ocidentais, que favoreceram o seu fortalecimento e fizeram da palavra “anticomunista” quase que uma acusação criminal para quem a proferia e para quem ainda a profere.

Eis algumas passagens ilustrativas, de imprudências ocidentais face a um regime brutal:

No final da II Grande Guerra, o Exército de Vlassov (russo-cossaco não alinhado com os sovietes), Presidente do Comité de Libertação dos Povos da Rússia, começou a recuar para o lado dos americanos que se encontravam na Baviera, pois toda a sua esperança estava posta nos Aliados. Mas os americanos receberam-nos mal e obrigaram-nos a entregarem-se aos soviéticos. E nesse Maio, na Áustria, Churchill na mesma linha, entregou ao comando soviético um Corpo Cossaco de noventa mil homens, bem como muitos carros repletos de velhos, crianças e mulheres, que não desejavam regressar às margens dos pátrios rios cossacos.

A maneira como esta entrega foi feita teve carácter pérfido, tradicional da diplomacia inglesa. O facto é que os cossacos estavam dispostos a bater-se até à morte, ou a partir para o outro lado do Oceano, desde que não tivessem que se entregar aos soviéticos. Por isso os ingleses propuseram primeiramente aos cossacos que depusessem as armas, sob o pretexto de unificação. Depois chamaram os oficiais separadamente dos soldados, para uma pretensa conferência sobre os destinos do Exército Cossaco, a realizar na cidade de Hudemburgo, na zona de ocupação inglesa; mas na noite anterior haviam cedido secretamente essa cidade às tropas soviéticas. Quarenta autocarros com oficiais, incluindo o General Krasnov, passando pelo alto viaduto, desceram directamente para o semicerco de carros prisionais, em torno dos quais já se encontravam as escoltas dos soviéticos. O caminho de retirada estava barrado por tanques soviéticos. Nem sequer se podiam suicidar com um tiro, ou apunhalando-se: todas as armas tinham sido confiscadas aos Oficiais Cossacos. Alguns lançaram-se ainda do viaduto. Depois os ingleses, usando o mesmo estratagema, entregaram os soldados, metidos em comboios, como se fossem reunir-se aos seus oficiais, para receber armas.

Isto é, ingleses e americanos têm a consciência pesada, porque entregaram à morte milhares de soldados e oficiais russos que, terminada a guerra, queriam fugir para os países ocidentais. Parte da explicação do porquê da maldição que ainda hoje recai sobre a palavra “anticomunista”, está aqui.

O próprio Soljenitsin, membro desses exércitos que queriam desertar para o Ocidente, foi preso. “O órgão que administrava estas penas e as distribuía era denominado ‘Comissões Especiais’ (O.S.O.) e era composto por membros do Comité Central do Partido Comunista, do Ministério da Segurança do Estado e da Procuradoria”. Este órgão gozava de uma inteira liberdade jurídica e impunha a sanção discricionariamente. Das decisões da O.S.O. não havia recurso judicial. Estava subordinada apenas ao Ministro do Interior.

Nota final

Depois da leitura e estudo dos vários documentos, apetece perguntar: porque continua a ser mal vista uma pessoa que se afirme anticomunista? Os Comunistas são peritos no jogo psicológico e na contra informação e sabem que a sua melhor arma é o ataque a quem se lhes oponha ou que tente desmascará-los e aos seus horrendos crimes contra a humanidade.

E ingenuamente os Ocidentais, por sentimentos de culpa ou por medo, têm deixado que se branqueiem estes factos documentados. É tempo de se mudar este tipo de situação! É a melhor homenagem que se pode prestar a Alexandre Soljenitsin.

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