FERNANDO DE CASTRO BRANDÃO

Embaixador de carreira jubilado

Por ter poupado Portugal aos horrores da II Guerra Mundial, o Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, foi homenageado pelas mulheres portuguesas em 1948. Uma estátua ficou a testemunhar, em Lisboa, esse tributo, que o vandalismo do PREC pretendeu apagar da memória dos portugueses. No entanto, a estátua ainda existe e bem podia ser restituída à cidade.

Naquela tarde de Inverno do dia 11 de Janeiro de 1948 tinha lugar em Lisboa uma cerimónia algo invulgar. Tratava-se da entrega ao Município de uma estátua, mandada esculpir por subscrição pública. O objectivo era manifestar o preito de gratidão das mulheres portuguesas ao Presidente do Conselho, Doutor Oliveira Salazar. Gratidão essa devida ao facto de o governante ter logrado manter Portugal arredio dos horrores da 2.ª grande guerra, poupando assim milhares de vidas de filhos, cujas mães agora agradeciam.

A ideia nascera após o término daquele conflito mundial. Um grupo de senhoras decidira enviar ao Chefe do Governo um telegrama de reconhecimento pelo êxito da política adoptada. Mas as adesões às assinaturas foram tantas, que se resolveu materializar numa estátua esse sentimento colectivo.

A escolha do executor da obra recaiu no Mestre Leopoldo de Almeida que, juntamente com Francisco Franco, pontificava na arte escultórica da época.

Após um primeiro estudo, talvez menos feliz, que se ilustra nestas páginas, o escultor fixa a obra final, a nosso ver muito mais conseguida. Segundo Rita Mega da Fonseca, “a postura da figura remete-nos para um ideal de beleza contemporânea da época em que foi elaborada…”. E ao que nos diz esta especialista, o modelo da cara terá sido Helena, a própria filha do artista.

O local eleito para a implantação da estátua foi o então chamado Jardim da Imprensa, hoje Jardim Maria Elisa de Sousa Pedroso, pianista, contíguo ao muro do jardim da residência de Oliveira Salazar, na Rua da Imprensa à Estrela, em Lisboa.

O acto de entrega do monumento à cidade, em Domingo, foi naturalmente muito concorrido. A edilidade estava representada pelo próprio Presidente, Tenente-Coronel Álvaro Salvação Barreto; também presente Luís Pastor de Macedo, notável olisiponense e substituto na presidência. Entre as demais individualidades contavam-se António Ferro, o criador da “política do espírito” estadonovista, sua mulher a escritora e poetisa Fernanda de Castro, António Eça de Queiroz, do Secretariado da Informação e filho do grande escritor, toda a vereação e muitos mais.

O descerramento da estátua, envolta nas bandeiras nacional e camarária, coube a Dona Maria Cristina Champalimaud, da Comissão Promotora da homenagem. Seguiram-se os inevitáveis discursos, felizmente breves. O primeiro foi proferido por Maria Teresa Andrade Santos, que historiou o movimento espontâneo de centenas de mulheres, aglutinadas pelo sentimento comum de agradecer a quem consideravam que muito deviam.

Em resposta, o Presidente da edilidade tomou a palavra, sem se alongar demasiado. A certo passo, disse: “A Câmara Municipal aceita, em nome da Cidade, a honrosa incumbência de conservar este testemunho vivo do vosso aplauso e do vosso reconhecimento ao Homem que soube reconduzir Portugal ao conhecimento de si próprio e da sua missão no Mundo”.

Mau grado o compromisso, a História vindoura viria a fazer “tábua rasa” daquela “honrosa incumbência de conservar aquele testemunho”…

Findas as intervenções, sempre muito aplaudidas, as senhoras da Comissão Organizadora entram nos jardins do palacete e dirigem-se para a entrada deste. Em perfeita coordenação, à porta da residência surge a recebê-las, sorridente, o Presidente do Conselho. É então que a condessa de Sabugosa, que nos seus 92 anos presidia à organização, faz entrega de uma mensagem ao Doutor Salazar. O seu texto fora encadernado e iluminado pelo consagrado artista plástico Jaime Martins Barata e era do seguinte teor:

“Salazar! As mulheres de Portugal ficam-te devendo a vida e a paz dos seus lares. E porque o não esqueceram, quiseram, numa homenagem simples, mas sincera, testemunhar-te a sua eterna gratidão. Por isso vieram aqui, de todas as partes do País, desde as mais humildes às de condição mais elevada, apontar-te aos seus filhos como exemplo de um grande português e gritar-te do mais fundo dos seus corações: Obrigado! Obrigado!”.

Entretanto, boa parte da assistência que presenciava a inauguração franqueia os portões do jardim e aclama o Chefe do Governo. Este, depois de receber a mensagem, toma a palavra. E que lhes diz?

“Quando terminado o grande conflito, de todos os pontos do País e de mulheres de todas as condições sociais começaram a chegar, como chuva de flores, missivas com palavras que muito me sensibilizaram. Nunca as agradeci. Mas vejo agora que se desejou ir mais longe – as mulheres portuguesas, afrontando o lugar-comum de todos os povos serem ingratos, quiseram fixar na arte, pelo menos, um momento de gratidão. Não sei se essa gratidão será ou não justa – o que é certo é que ela me lembra, sem dúvida, alguns momentos que foram uma longa vida, que eu não poderia repetir”.

Com tais palavras encerrava-se a cerimónia. O homenageado reentra na residência, para logo assomar a uma janela de onde reitera os seus agradecimentos.

Até ao golpe militar de 25 de Abril de 1974, ali permaneceu este belo exemplar da estatuária portuguesa, inserido no acolhedor Jardim da Imprensa, cuja dimensão não atinge o meio hectare.

O turbilhão barbárico do PREC, Processo Revolucionário em Curso (“rebentou-se o cano de esgoto”, no dizer do Professor Bissaya Barreto, catedrático de Medicina e grande filantropo), não deixaria incólume aquele testemunho de gratidão. Alguns díscolos, prenhes das liberdades estabelecidas, decapitaram a figura feminina. Acto vandálico, sem quaisquer consequências para os perpetradores, como acontecerá com outros monumentos, trouxe oportuno e conveniente pretexto à edilidade capitalina dessa altura para proceder à imediata remoção da estátua. Terá sido mesmo um alívio…

Assim se mantém até hoje. Quis saber do seu paradeiro. Feitos alguns contactos, fui dirigido para o Museu da Cidade. Exposto o assunto, e para grande surpresa minha, num ápice obtive autorização para ver a estátua. Encontra-se em armazém da Câmara Municipal, para as bandas do aeroporto, no Figo Maduro.

Para ali me desloquei, na companhia de uma Senhora Técnica, da maior simpatia.

No meio de outras peças escultóricas de Leopoldo de Almeida, doadas pela família, fotografei a imagem original mutilada.

Sendo certo que a cabeça decapitada pelos energúmenos desapareceu, questiono: talvez um dia a edilidade lisboeta, já sem a pressão do odioso e pusilânime “politicamente correcto”, queira decidir-se a restituir à capital a estátua que lhe pertence. E pode fazê-lo por inteiro, isto é, com cabeça. Como?

Basta aproveitar o modelo prévio, antes de ser passado à pedra. Existe, está incólume e encontra-se (pasme-se!) no pátio interior de um recente hotel sito no Terreiro do Paço, por empréstimo… Obviamente, subtraído da base ou plinto onde se esculpira a mensagem de gratidão a Salazar. E o mais curioso é que no mesmo local pode ainda ver-se o primeiro estudo elaborado pelo artista.

Constata-se, assim, que a Câmara Municipal de Lisboa dos nossos dias revela interesse em exibir e partilhar publicamente aquela bela obra de escultura. Só que o faz em recinto privado e exíguo, quando poderia e deveria implantá-la num dos muitos jardins da cidade. E, já agora, por que não no seu ‘habitat’ original, mesmo que sem alusão ao Estadista que lhe deu origem, porque isso seria pedir muito!…

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