Casa de Salazar à venda por cinco milhões e meio

Casa de Salazar à venda por cinco milhões e meio

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A 4 de Julho de 1937, Oliveira Salazar foi alvo de um atentado quando se preparava assistir à missa. O Presidente do Conselho escapou por milagre a uma bomba que obrigou a repensar a segurança do chefe do Governo e a construir uma residência oficial. Só então Salazar deixou a casa onde morava, num bairro do centro de Lisboa. A mesma que hoje está em ruínas, num terreno à venda por uma fortuna.

O anúncio está no site de uma conhecida multinacional imobiliária: “Terreno com enorme potencial, no centro de Lisboa com 1410 m2.

Possibilidade de edificar entre 5022m2 e 5886 m2 de área bruta de construção [… com] acesso directo a partir de um arruamento, nomeadamente Rua Bernardo Lima e Rua Ferreira Lapa.” Preço pedido: 5.500.000 euros.

O que poucos sabem é que a ruína entaipada na Rua Bernardo Lima, junto à esquina com a Av. Duque de Loulé, foi a casa onde morou Salazar durante os primeiros anos em Lisboa, já Presidente do Conselho de Ministros.

Ocupada por militantes da extrema-esquerda a seguir ao golpe de 1974, ali ficou instalada durante vários anos a sede da UDP, partido maoísta actualmente integrado no Bloco de Esquerda… até ver, de acordo com notícias recentes que apontam para o esfarelamento acelerado daquele grupo radical.

Foi dessa casa que o chefe do Governo do Estado Novo, que, como católico, cumpria zelosamente a obrigação de ir à missa aos domingos, saiu para, como era seu hábito, assistir à missa numa capela particular, na Av. Barbosa du Bocage, nº 96.

A capela estava instalada na moradia do seu amigo Josué Trocado, compositor, musicólogo e professor de Canto Coral no Liceu Pedro Nunes, avô materno de Diogo Freitas do Amaral, fundador do CDS, antigo candidato à Presidência da República e ministro em governos da AD e, mais recentemente, do PS.

No dia 4 de Julho de 1937, o Buick que transportava Salazar e Leal Marques, o seu chefe de Gabinete e inspector-geral das Finanças, parou frente ao portão do jardim de Josué Trocado pelas 10h30. No momento em que Salazar saía do carro, uma explosão pavorosa atroou os ares, deixando à vista de todos uma enorme cratera junto ao carro. Ileso, o chefe do Governo levantou-se, sacudiu o pó e disse calmamente: “Já passou tudo. Não atrasem a Missa.”

Atentados contra o Estado Novo 

O atentado de 4 de Julho foi executado por anarquistas e comunistas, e fez parte de uma onda bombista que assolou Lisboa ao longo de 1937. A 21 de Janeiro, explodiram bombas no Consulado de Espanha, junto ao Parque Mayer; no Depósito de Material de Guerra, em Beirolas, na zona oriental da capital; no Ministério da Educação, então no Campo de Santana; na antena da Emissora Nacional; no Rádio Clube Português, na Parede; e na gasolineira Vacuum Oil Company (antecessora da Mobil), em Alcântara.

A acção criminosa contra a vida de Salazar levou cinco meses a montar. O reconhecimento do terreno levou os terroristas a optar pela colocação de uma bomba num colector de esgoto. Compraram dinamite, detonador, fio, bateria e uma vela eléctrica a um fornecedor da Mina de São Domingos, no Alentejo. Um serralheiro mecânico fabricou o invólucro da bomba: uma garrafa de ferro galvanizado.

O “milagre”

Na madrugada de 4 de Julho, três conspiradores transportaram o material de carro até ao local marcado para o atentado. Mas ao tentarem colocar a bomba em posição, verificaram que esta emperrou na parede do colector: era grande de mais para ficar na posição desejada. Para não perderem tempo, o que aumentaria o risco de serem descobertos, os terroristas decidiram manter a bomba encostada à parede do colector. O fio que ligava a bateria à vela, para detonar a bomba, foi esticado até à tampa de saída do esgoto, junto ao nº 162 da Av. 5 de Outubro.

Quando o carro da polícia que escoltava o do chefe do Governo se aproximou, um dos conspiradores fez o sinal combinado para o encarregado de provocar a detonação saber que estava iminente a chegada do alvo. No momento em que o carro do Presidente do Conselho se imobilizou diante do portão do jardim da vivenda, outro anarquista fez o segundo sinal e afastou-se do local.

Na Av. 5 de Outubro, o terrorista encarregado de provocar a explosão puxou várias vezes o fio com toda a força. A violência da explosão fez saltar as tampas do colector de esgoto. Uma delas acertou com toda a força na perna do próprio bombista, que fugiu a coxear. Mais tarde, o comunicado da polícia, referia que um dos procurados era um coxo visto a fugir do local do crime…

A Guerra de Espanha

A onda bombista de 1937 e o atentado contra Salazar foram o “canto do cisne” do braço armado da outrora poderosa Confederação Geral do Trabalho (CGT), a central sindical anarquista, ferida de morte pelo falhanço da greve geral de 18 de Janeiro de 1934. Os anarquistas portugueses procuravam, ao mesmo tempo, atacar os interesses nacionalistas espanhóis em Portugal, um dos principais apoios internacionais do general Franco. O governo de Lisboa cortara relações com o governo republicano de Madrid e reconhecera a Junta nacionalista de Burgos. Daí o ataque à bomba não só ao consulado espanhol mas também ao Rádio Clube Português, estação privada que fazia propaganda e transmitia informações aos nacionalistas, e à Vacuum, que fornecia combustível para os nacionalistas. Para os apoiantes dos vermelhos espanhóis, a eliminação de Salazar permitiria ao mesmo tempo decapitar o regime português e privar Franco de um aliado fundamental.

Crime e castigo

As primeiras prisões foram feitas em Julho, seguindo-se uma segunda vaga a 31 de Agosto e novas detenções em Setembro. Ao fim de meses de interrogatórios, a acusação foi deduzida em Novembro de 1938 e os autores do atentado levados a tribunal militar. Quinze dos acusados foram condenados a penas entre os seis e os dez anos de prisão, seguidas de mais 10 a 12 anos de degredo no Ultramar. Outros sete foram julgados à revelia. Como a Reorganização dos Serviços Prisionais tinha acabado com as colónias de degredados em África, as penas de degredo foram convertidas em prisão, mas reduzidas em um terço.

Solidariedade internacional

No próprio dia do atentado e nos dias seguintes, Salazar recebeu manifestações de desagravo do país e do estrangeiro. Choveram telegramas de felicitações de Inglaterra (Chamberlain), da Alemanha (Hitler), de Itália (Mussolini), do Vaticano (cardeal Pacelli, futuro Papa Pio XII, então Secretário de Estado). A 6 de Julho, mais de 1500 oficiais do Exército e da Marinha foram a S. Bento manifestar apoio ao chefe do Governo. Salazar falou do “ódio de que somos objecto” por causa do apoio aos nacionalistas na Guerra de Espanha, acrescentando: “E devo dizê-lo em plena consciência que o merecemos inteiramente”. A concluir deixou um desafio: “E se há mais atentados? Pois, senhores, então continuamos…”

Segurança reforçada

O atentado de 1937 revelou falhas graves na segurança do Presidente do Conselho, que passou a dispor de um carro blindado, um Chrysler Imperial. Outra consequência foi a atribuição de uma residência oficial ao chefe do Governo. Meses depois do atentado, Salazar mudou-se para o palacete de S. Bento, nas traseiras da Assembleia Nacional, onde residiu até à morte, em 27 de Julho de 1970.