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C. A. CRISTÓVÃO

Há alguns anos, participando num seminário internacional, algures em França, relacionado com o futuro das sociedades ocidentais, fiquei inserido num módulo temático dedicado à juventude. Tanto quanto me lembro, havia um francês que era o relator, um canadiano, um italiano, um holandês e eu próprio. A certa altura, avancei a ideia de que a juventude das democracias ocidentais, a quem tudo era prometido ou a quem nada faltava, vivia na nostalgia de aventuras e empresas de risco e lembrei a frase: “…a juventude quer estaleiros e as democracias só lhe oferecem ‘self-services’”

Hoje, as classes trabalhadoras revêem-se em objectivos que outrora pertenciam à classe média baixa, à pequena burguesia. A promessa de melhoria de vida ou de ascensão material e social condicionou comportamentos, aconselhando prudências, celebrando comodidades e garantindo às famílias que a sua prole não conheceria as dificuldades por que os pais haviam passado. No novo quadro, a juventude tinha à sua disposição inúmeras oportunidades pré-garantidas que lhe permitiriam viver comodamente, sem sobressaltos de maior e em segurança contra as adversidades da vida. Tudo estava prometido e, em muitos casos, dado mediante uma coligação formada pelos pais e pelo Estado.

O efeito de redoma, que esta política produziu na juventude das democracias ocidentais, teve como consequência que as “plantas humanas” assim tratadas, fora de um contexto normal e ultra protegidas, tenham crescido psicologicamente “enfezadas” e sedentas de ar livre. Quando comparadas com as suas homólogas, das sociedades pobres ou autocráticas, sujeitas ao tempero das circunstâncias reais e ganhando com ele a têmpera necessária à vida, estas “flores de estufa” cedo começaram a sentir a revolta pela sua condição.

Sobretudo, quando colocados em contacto directo e quotidiano, ou mediático, com certas minorias oriundas de condições de vida duras, as crias mimadas pela asa protectora da cidadania, sentiram despertar a força que neles vivia, oculta, mitigada ou reprimida, que é a força irreprimível da juventude.

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