DUARTE BRANQUINHO (em Wuppertal)

A crise económico-financeira leva-nos a olhar para a Alemanha como “o país dos ricos”, mas neste gigante da indústria europeia também se notam os mesmos sintomas que noutros países. Há uma parte da população que perde empregos e poder de compra, ao mesmo tempo que outros lucram. São duas Alemanhas que convivem, por vezes na mesma cidade. O DIABO visitou Wuppertal e conta-lhe as duas faces de uma realidade desconhecida de muitos.

Aterrar em Düsseldorf é chegar a um dos maiores centros económicos e industriais da Alemanha. À primeira vista, temos contacto com uma realidade que em Portugal é desconhecida, o coração de uma região altamente produtiva com uma dimensão impensável para o nosso país.

As longas auto-estradas que se cruzam têm pelo menos duas faixas ocupadas por camiões de transporte de mercadorias.

As inúmeras fábricas são visíveis ao longo do percurso e rapidamente percebemos porque é que o “Made in Germany” está gravado em tantos dos produtos que utilizamos.

No vale do Wupper

fotografia 4Wuppertal, que significa literalmente “Vale do Wupper”, é uma cidade do Estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália atravessada pelo rio Wupper. Nos séculos XVIII e XIX este vale era uma das maiores regiões industriais da Europa continental. A actividade mantém-se, mas muito mudou.

Apesar de ter um grande número de edifícios classificados, a cidade não tem uma beleza especial. O bulício começa bastante cedo e o tráfego é intenso, sintomas de uma terra de trabalho.

O elemento mais marcante é o Wuppertal Schwebebahn, o comboio suspenso que circula sobre o rio. Data de 1901 e foi uma inovação tecnológica impressionante que ainda hoje nos chama a atenção. Parcialmente destruído na Segunda Guerra Mundial, foi depois alvo de várias renovações e actualmente funciona como o metropolitano da cidade. Há ainda o Jardim Zoológico e alguns edifícios importantes, mas pouco mais que distinga de tantas cidades industriais.

Nos arredores concentram-se várias fábricas ligadas à indústria têxtil, metalúrgica, química, farmacêutica, electrónica, automóvel, entre outras.

É a terra natal de Friedrich Engels, co-autor com Karl Marx do “Manifesto Comunista”, de 1848, mas também de Friedrich Bayer, o inventor da Aspirina.

Uma fábrica de excelência

IMG_0452O ponto alto da viagem foi a visita à fábrica da Vorwerk. Esta indústria, fundada em 1883, é conhecida pelos aspiradores Kobold e pelo ‘robot’ de cozinha Thermomix, que em Portugal dá pelo nome “Bimby”.

O último modelo desta máquina que se tornou um fenómeno mundial é o TM5, que inclui um ecrã táctil e parece saído de um filme de ficção científica. Apesar da crescente concorrência, as vendas do novo modelo ultrapassaram as melhores expectativas.

A linha de produção é impressionante e marcada pela utilização da mais alta tecnologia e o auxílio de ‘robots’. A visita foi orientada por Stefan Hilgers, doutorado em engenharia e responsável internacional pelo produto. Mostra-nos os vários passos do fabrico da máquina, os pontos de controlo da qualidade e a preocupação com a eficiência. É um homem alegre e divertido, que fala com prazer do seu trabalho e da “Bimby”, a quem chama “o seu bebé”.

“Veste a camisola” da empresa e está muito satisfeito com o sucesso desta invenção que revolucionou tantas cozinhas. Conhece Portugal, país que visitou várias vezes e do qual fala elogiosamente com um sorriso. Diz-nos que na sua equipa trabalha uma portuguesa, Maria Resende, que foi responsável pela grande novidade da TM5, o ecrã táctil. Também há portugueses em lugares de topo na indústria alemã.

Uma terra de oportunidades?

Para além desta vibrante indústria, há uma realidade semi-oculta. O centro de Wuppertal não é o de uma cidade rica e muitos dos bairros estão descuidados. A dúvida é-nos tirada por Hans, um engenheiro de 54 anos com quem conversámos a propósito da Economia alemã. “Perdi o emprego”, diz-nos desanimado.

As perspectivas de encontrar trabalho não são as melhores. Segundo ele, como noutros lados, a preferência vai para os mais novos, recém-formados, a quem as empresas pagam menos. Aponta para o fundo da rua e diz: “Veja aquelas lojas fechadas, nem sempre foi assim”. É um dos sinais. Para Hans, a diferença entre os que têm mais e os que têm menos está a acentuar-se de dia para dia. Há muito desemprego, “mesmo nos jovens”, diz-nos, apesar de tantas fábricas. Não acredita em melhores dias. Para muitos alemães, esta não é uma terra de oportunidades.

Sobre Portugal pouco sabe. “Também estão em crise, não é?”, pergunta-nos. A questão, que a qualquer português soa como ironia, pareceu-nos sincera.

A terra das lâminas

IMG_0444Em Solingen, conhecida como a “cidade das lâminas”, pela sua tradição secular de fabrico de espadas, facas, tesouras e navalhas, visitámos mais uma indústria. A RSG é uma empresa familiar, como tantas na Alemanha, mas com uma produção e organização impressionantes.

Os proprietários recebem-nos com orgulho e mostra-nos a linha de produção. Os funcionários são simpáticos, cumprimentam-nos e explicam-nos o seu trabalho. Nota-se a proximidade, amizade até, com os proprietários. Muitos deles estão na empresa há mais e uma década, formaram-se ali e há um forte sentimento de pertença. Produzem lâminas mais os mais diversos usos: doméstico, industrial, cirúrgico. No final da visita despediram-se calorosamente, como se nos tivessem recebido na sua própria casa.

De seguida, uma ida ao centro de Solingen tirou-nos a ilusão de encontrar uma Toledo germânica. Depois de estacionarmos no parque de um centro comercial bastante degradado, onde a maioria das lojas eram ocupadas por turcos, perguntámos indicações a um casal de meia-idade. O homem, ao saber que éramos portugueses, disse-nos que falava castelhano e preferiu essa língua ao inglês. Apontou-nos o centro, que era bastante próximo, mas alertou-nos para não esperarmos nada demais. Despediu-se e na sua expressão pareceu levar a dúvida sobre o que levaria portugueses a visitar aquela terra.

De facto, por incrível que pareça, não há no centro de Solingen uma única loja que venda as famosas facas ali produzidas. Tal foi-nos confirmado por vários comerciantes a quem perguntámos indicações. A única referência à indústria que deu o nome à terra é o monumento numa pequena praça central.

Adeus português

No último dia, o jantar de despedida é num restaurante novo no centro. É uma hamburgueria, como as que estão na moda em Portugal, com preços acessíveis ao nível dos que se praticam por cá. A clientela é jovem e enche o espaço, só há lugares “lá fora”. Atende-nos uma rapariga que não sabe mais do que algumas palavras básicas de inglês. Perante a dificuldade, chama o colega, um jovem de origem turca, que nos fala com um carregado sotaque americano e com um sorriso como se estivesse num ‘casting’ para um filme de Hollywood. Entendemo-nos e pedimos o que queremos.

Enquanto nos deliciávamos e comentávamos o excelente pão típico do Norte da Alemanha, somos interrompidos por um empregado na casa dos vinte anos de idade: “Bem me parecia que tinha ouvido falar português”, disse-nos. Sorrimos e trocámos algumas palavras. Quando soube que o nosso regresso seria no dia seguinte disse-nos adeus e desejou-nos uma boa viagem. O seu regresso não será para tão cedo…

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