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John C. Edmunds, Charles Winrich e Mark F. Lapham

No segundo artigo sobre o envelhecimento da Europa e as condições para que isso aconteça sem dramas, mantendo o actual nível de vida, os autores, três prestigiados académicos norte-americanos, discutem o problema da quebra demográfica e da emigração de profissionais liberais, técnicos e trabalhadores especializados: os quadros, chave da economia. 

E se a produtividade não aumentar? Os países objecto deste estudo (Portugal, Bélgica, Estónia, Grécia, Itália e Polónia) têm condições para manter o actual nível de produção porque os desempregados podem ocupar os postos de trabalho deixados vagos à medida que os trabalhadores mais velhos se reformam.

Esta afirmação animadora precisa de ser elucidada porque, na verdade, oculta dois pressupostos sem os quais não poderá verificar-se. O primeiro é que os desempregados possuam as competências necessárias para desempenharem as funções dos que vão para a reforma. O segundo é que os movimentos migratórios não venham alargar a gama de resultados possíveis, tanto em sentido positivo como negativo.

O número de aposentações vai ser elevado, por isso uma questão fundamental será preencher os postos de trabalho deixados vagos e manter a população local em idade produtiva. Para a Bélgica, por exemplo, a população activa em 2031 sofrerá uma redução de meio milhão de pessoas relativamente aos números actuais.

A evolução dos números da população activa dá que pensar, mas não é totalmente desanimadora. Para a Bélgica, as projecções da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com base na força de trabalho actual (número de pessoas empregadas), prevê uma quebra de apenas 52.000 em 2031. Se essa previsão estiver correcta, o aumento de produtividade necessário será de apenas 1,2 por cento.

Os dados da OIT pintam um retrato igualmente optimista da situação em Portugal. Os dados demográficos brutos apontam para uma redução de 3,4 por cento da população activa portuguesa, mas a OIT calcula que a diminuição da força de trabalho será de apenas 2,1 por cento. Nesse caso, Portugal precisará apenas de pequenos ganhos de produtividade para manter o actual nível de produção.

Os movimentos migratórios podem, no entanto, complicar estas projecções. A recolha de dados torna-se difícil quando as pessoas vão e vêm constantemente de um país para outro. Um pequeno número de pessoas que passe parte do ano num país diferente pode ser suficiente para baralhar as previsões. Além disso, há também grandes margens de erro para cada uma das previsões. Mas, se estiverem correctas, as previsões da OIT apontam para taxas de emprego significativamente altas da força de trabalho potencial (população em idade economicamente activa). O declínio demográfico pode ser a sorte dos jovens trabalhadores com formação – à medida que a geração mais velha de trabalhadores com formação passa à reforma.

Declínio proporcional nas profissões liberais, quadros e trabalhadores especializados

A categoria mais instável da força de trabalho é a dos trabalhadores especializados, quadros técnicos, gestores e profissionais liberais. Focamos a nossa análise neste grupo porque os trabalhadores com formação são necessários para dirigir as actividades económicas e é difícil atraí-los de outras partes do mundo. Partindo do princípio de que a composição da força de trabalho se mantém, em Portugal o número de empregos diminui mais lentamente do que a população activa, isto é, de 4,71 milhões em 2011 para 4,56 milhões em 2031. O nosso segundo pressuposto é que o número absoluto de quadros (gestores, profissionais liberais e trabalhadores especializados) em 2011 é o número necessário para sustentar a produtividade e o nível de vida actuais até 2031. Assim, prevemos que o número do “emprego de quadros” se mantenha constante até 2031, o que no caso de Portugal significa 2,59 milhões.

Prevê-se que o número total de empregos diminua em todos os seis países estudados. Consideramos que o número absoluto de trabalhadores da categoria dos quadros deve manter-se constante para sustentar o nível de vida. Por conseguinte, a proporção dos quadros relativamente ao total de trabalhadores terá de aumentar percentualmente – e até aumentar algumas dezenas de milhar em números absolutos – sob pena de a actividade económica e o nível de vida serem negativamente afectados. Em Portugal, por exemplo, para conseguir isso, a economia precisa de integrar/reconverter 81 mil trabalhadores na categoria dos quadros, uma necessidade (ou potencial falta) de 3,2 por cento.

Vale a pena calcular também o impacto da emigração. Alargámos a nossa análise através da quantificação do potencial risco de emigração de trabalhadores da categoria dos “quadros”. Para isso calculámos o impacto progressivo de taxas anuais de emigração desses profissionais de um, dois e três por cento até 2031. Estes cálculos não são previsões para o futuro dos países da amostra: são meras afirmações, com base aritmética, de que as coisas podem correr mesmo mal se um país e a sua comunidade empresarial não conseguirem oferecer as oportunidades adequadas aos seus cidadãos economicamente mais valiosos.

Não será surpresa para ninguém que a perda de 3 por cento de quadros e profissionais especializados compelidos a emigrar venha transformar um problema incómodo – embora talvez passível de resolução – numa queda iminente: a perspectiva de a Itália tentar compensar a perda de três quartos de milhão de contribuintes com um papel-chave na economia é mais do que perturbadora – é sombria.

E o pior é que a emigração é auto-sustentável. Se um jovem engenheiro emigra para a Austrália e arranja emprego compatível, é natural que os seus colegas de faculdade fiquem com vontade de correr também o risco de se mudarem para outro país ou para outro continente.

Os cenários que prevêem a debandada de trabalhadores especializados são o papão dos profetas da desgraça demográfica europeia. O pessimismo será justificado, se as políticas postas em prática a nível nacional não forem capazes de manter no seu país os trabalhadores ali nascidos e formados. Um país nessa situação perde a dobrar: perde o rendimento que o trabalhador ali teria produzido e, ainda por cima, deixa de recolher o benefício do investimento que fez na formação desse trabalhador a quem não dá outra alternativa melhor do que emigrar. Para manter e, se possível, melhorar o actual nível de vida é preciso conservar em cada país os seus melhores potenciais contribuintes – e motivá-los.

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