PEDRO A. SANTOS

Não adianta crucificar os nossos atletas pela falta de medalhas nos Jogos Olímpicos: a fraca ‘performance’ do desporto nacional reflecte uma classe dirigente desinteressada, um empresariado sem meios de investimento e a ausência de estímulos à prática desportiva. Não há omeletes sem ovos…

Já se tornou uma moderna tradição olímpica, entre nós: no início dos Jogos, a imprensa eleva até ao infinito as expectativas dos portugueses (que durante quatro anos essencialmente ignoraram até as modalidades em que iriam inscrever-se): “vamos ganhar”, “agora é que é”, “o ouro está garantido”, “se não for ouro há-de ser prata”.

Depois, quando nem de ouro, nem de prata, nem de bronze luzem medalhas nos bravos peitos lusitanos, a mesmíssima imprensa passa rapidamente a criticar e a crucificar os atletas. Terminados os Jogos, o alto “ideal olímpico” é consignado ao esquecimento durante mais quatro anos. Também consignadas ao esquecimento são as causas da nossa sistemática falta de vitórias nos Jogos.

Em 104 anos e 24 participações, Portugal acumulou 24 medalhas, o equivalente a apenas uma medalha por cada evento. O ano de 2016 nem ficará para a História como a nossa pior participação de sempre, tendo Portugal evitado o nulo total em termos de resultados graças à judoca Telma Monteiro.

Desde os Jogos de Barcelona, em 1992, que Portugal não regressa de mãos vazias de uns Jogos Olímpicos. Para este ano até havia boas expectativas: afinal, 92 atletas portugueses conseguiram qualificar-se, um número recorde apenas superado pela nossa comitiva aos Jogos Olímpicos de Atlanta, onde participaram 107 atletas, o maior número de sempre.

O facto de tantos atletas portugueses terem conseguido garantir lugar na aldeia olímpica (além de muitos terem recebido diplomas de participação e muitos outros terem chegado a fases finais) já se pode considerar miraculoso, mesmo que depois os bons resultados não se convertam em medalhas.

Miraculoso, pois Portugal é um País onde, hoje, o financiamento público às federações desportivas é menor do que em 1997, há quase uma década atrás. Em 1997, o Estado investiu 35 milhões de euros (valor convertido dos Escudos, pois o Euro ainda não tinha sido adoptado), e em 2014 o valor era de apenas 30 milhões.

A canoagem foi uma das modalidades atacadas pela opinião pública este ano, mas tanto os políticos como a imprensa esqueceram-se de mencionar que a Federação de Canoagem viu as verbas que lhe eram adjudicadas serem cortadas em 20 por cento no ano de 2013, em plena preparação para os Jogos que decorreram este ano. Um dos mais destacados atletas da canoagem, o “histórico” Silvestre Pereira, que participou nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, confessou agora ao ‘Diário de Notícias’ que “a Federação Portuguesa de Canoagem deixou de ter verbas para pagar aos atletas e nunca cheguei a ver o dinheiro que me ficaram a dever, ficando a ‘arder’ em dez mil euros”. Outro atleta, Fernando Pimenta, revelou a sua “angústia com os poucos recursos” disponíveis para conquistar resultados, notando a falta de apoios privados.

Sem fundos

Os portugueses aplaudiram a medalha de bronze no Judo, ignorando o facto de que esta Federação perdeu um terço do seu financiamento. Situações semelhantes, e dramáticas, vivem-se em todas as restantes modalidades em que os portugueses poderiam ter alguma aspiração olímpica.

No centro do problema encontra-se também o facto de todos os Governos, indiferentemente da sua cor política, usarem o mesmo critério para atribuir fundos – “resultados obtidos pelos atletas nacionais em confrontos significativos no concerto internacional” – ignorando geralmente o trabalho interno, e as suas próprias responsabilidades em termos de formação desportiva escolar.

Os apoios privados, em geral, ainda são muito pequenos, especialmente quando comparados com os melhores exemplos da actualidade mundial. Quase todo o financiamento da equipa olímpica dos Estados Unidos é privado, tendo esta organização arrecadado 35 por cento do seu orçamento a partir do licenciamento do uso da marca olímpica, conseguindo convencer as grandes empresas do valor de se associarem à marca olímpica.

Na União Europeia, e especialmente em alguns países como o Reino Unido e a Alemanha, o crescimento do sector desportivo é superior ao que se regista na economia em geral.

A recomendação comunitária é que o próprio desporto se profissionalize ainda mais, melhorando a sua oferta em termos de turismo desportivo, nutrição, serviços de publicidade, produção de equipamentos especializados, etc.

Portugal continua no fim da tabela em relação a estas áreas, com excepção de uma: seguros desportivos.

No Reino Unido, o Governo conservador investiu mais de mil milhões de euros só no desporto escolar, e ainda garantiu mais de 125 milhões de euros em financiamento directo aos atletas através da lotaria nacional.

Mas não é apenas o Estado que faz o seu papel. Num dos melhores exemplos, o interesse dos britânicos no ciclismo significa que esta modalidade representa agora mais de 3 mil milhões de euros na economia do Reino Unido, uma boa fatia da qual segue para formar novos atletas. Uma empresa criou mesmo uma equipa completa, com a sua designação comercial a aparecer nas competições.

O investimento permite dar uma continuidade aos projectos, o que é impossível em Portugal. O Reino Unido foi o segundo país do mundo com mais medalhas de ouro vencidas nos Jogos Olímpicos do Reino de Janeiro. Portugal ficou em 75º lugar.

Desenrascanço

O desinvestimento privado no desporto e a falta de modernidade do nosso sector desportivo são factos que podem ser medidos pela sua dimensão económica. O desporto em Portugal representa um negócio total de 1,5 mil milhões de euros, e neste total já está incluído o futebol.

Em comparação, o sector desportivo irlandês corresponde a mais de 2 mil milhões, apesar de aquele país de Língua Inglesa ter metade da população portuguesa. Na Holanda, o desporto contribui com quase 6 mil milhões para a economia nacional, na Bélgica o valor é de 3 mil milhões.

Em Portugal é também difícil, para um atleta, dedicar-se exclusivamente ao desporto. A ginasta Zoi Lima, após ter participado nos Jogos Olímpicos de Londres, admitiu que “o problema é conciliar os estudos com os treinos e as competições”. Outro atleta, Rui Bragança, do Taekwondo, admite que pagou a sua aventura olímpica com a ajuda dos pais e ainda não confirmou se vai participar nos Jogos de Tóquio, notando que “se não houver condições é impossível chegar a algum lado”.

Este atleta assinala as dificuldades existentes nas últimas participações, que obrigaram a algum “desenrascanço” muito português: “Já faço de médico, de fisioterapeuta, tudo e mais alguma coisa”. Mesmo assim, um jornal desportivo português não deixou de criticar o atleta, considerando que ele se tinha revelado “apático” durante o combate em que foi eliminado.

O Presidente do Comité Olímpico, José Manuel Constantino, notou o ano passado que não é só no dinheiro que residente o problema, afirmando que ainda falta “a formação dos técnicos, a melhoria da resposta do tecido associativo, a educação física nas escolas”.

Contudo, enquanto o número de profissionais do desporto a serem formados nas Universidades britânicas quadruplicou, em Portugal não se formavam tão poucos treinadores desde 1997. O desporto representa já 5 milhões de postos de trabalho directos em toda a União Europeia, mas em Portugal nem 0,10 por cento dos empregos. Apenas na Roménia a situação está pior.

Com o desinvestimento estatal e o desinteresse do público pela actividade desportiva a dominarem, não surpreende que o número de profissionais em Portugal tenha vindo a diminuir desde 2012, mesmo que o número de praticantes de desporto tenha duplicado desde os anos 90. Este valor, no entanto, continua a ser muito pequeno para os sonhos olímpicos portugueses.

Portugal inactivo

Não só temos uma das demografias mais envelhecidas do planeta, como ainda damos mau uso aos poucos jovens que temos. Portugal é dos países da Europa onde menos desporto, ou mesmo qualquer actividade física, se pratica.

Segundo dados do Eurostat, 64 por cento dos portugueses não pratica qualquer desporto, um dos valores mais alarmantes da Europa. O número de inactivos aumentou, mesmo, nove pontos percentuais face ao estudo anterior. E 70 por cento dos portugueses não fazem qualquer actividade física durante a semana, o valor mais alto registado na Europa.

Portugal é o país da Europa onde mais pessoas afirmam não praticar desporto por falta de recursos financeiros. De facto, Portugal já se conta como um dos países onde a juventude aufere dos rendimentos mais diminutos da Europa: em média, cada jovem português ganha 549 euros por mês, menos do que os seus congéneres na Europa de Leste.

Considerando-se o preço do material desportivo, mais o custo do uso de instalações desportivas, compreende-se como o rendimento disponível não pode ser suficiente.

Para piorar o caso, o Estado português exige aos atletas um dispendioso seguro desportivo, uma “modernidade” que muitos países do Norte da Europa também exigem. No entanto, esses países têm os seus sistemas de saúde baseados em seguros obrigatórios que comparticipam tratamentos, sendo depois privada a maioria dos hospitais e clínicas (caso exemplar da Holanda e da Alemanha).

Em Portugal, o sistema nacional de Saúde é directamente financiado a partir dos impostos dos contribuintes, incluindo dos atletas, mas a estes ainda é exigido um seguro desportivo obrigatório. Estes seguros, em muitos casos, pouco asseguram para além de uma renda estatal para a seguradora. Num dos casos a que O DIABO teve acesso, para activar um destes seguros o atleta foi obrigado a pagar uma franquia de 120 euros.

Outra barreira é o tempo: 33 por cento dos portugueses dizem não praticar desporto por não terem tempo. Em Portugal, o limite de oito horas de trabalho por dia é uma ficção legal, visto que um estudo da OCDE diz que a média se aproxima das 9 horas por dia, sem contar com o tempo gasto nas deslocações entre o trabalho (quase sempre no centro das grandes cidades) e a residência (maioritariamente nos subúrbios dessas grandes cidades).

Descontada destes cálculos a Função Pública – onde existe mais regulação –, a média dispara. Os portugueses são o quarto povo que mais horas trabalha, quer isso corresponda a mais riqueza criada ou não. Adicionalmente, cada jovem português também trabalha, em média, entre três e quatro horas não remuneradas por dia. Muitos portugueses desistem do desporto ao chegarem à idade da maioridade, por falta de tempo.

Face a todas estas barreiras, face à enorme fraqueza estrutural do desporto português, os resultados dos nossos atletas não são um fracasso. São já um enorme sucesso.

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