O que acontece quando o ‘marketing’ americano e a esquerda caviar se juntam ao culto de personalidade do comunismo? Aparecem cartazes onde Estaline fuma os cigarros electrónicos da moda, Lenine veste calças de ganga e usa telemóvel, e Karl Marx aparece vestido à “exterminador implacável” com a legenda “I’ll be back”. E eles querem de facto voltar, enganando uma geração que liga pouco à História mas muito às marcas. Os velhos comunistas devem estar a rebolar no mausoléu…

Yanis Varoufakis, o radical de esquerda que liderou o pouco que ainda restava das finanças gregas, foi gozado durante meses pelo seu estilo de vida abertamente burguês, aparentemente em conflito com as crenças esquerdistas que apregoava. Não contente com mostrar o seu desprezo pelo fato e gravata da odiada “burguesia”, Varoufakis usava calças de ganga à americana com sobretudos da Barbour e um cachecol da Burberry’s, ambas marcas de luxo inglesas, símbolos do “grande capital” ao qual tanto se opunha. A sua esposa, descendente de uma abastadíssima família grega, é alegadamente a inspiração para uma célebre música que fala de uma mulher rica que quer desesperadamente “ser como a gente comum”. Depois do ridículo de uma sessão fotográfica ao estilo das revistas cor-de-rosa, Tsipras demitiu Varoufakis. Erro crasso, pelos vistos: o Syriza afunda-se de dia para dia nas sondagens, enquanto o “marxista burguês” continua nas altas esferas, inaugurando movimentos e aliciando jovens.

Na Rússia, o Partido Comunista, descendente directo da organização que oprimiu aquele país durante quase um século, ainda sonha com a restauração da antiga União Soviética, constando esse objectivo do seu programa eleitoral. Mas para as eleições legislativas que decorreram neste último Domingo, os ‘slogans’ e os cartazes já não se inspiraram na velha propaganda do tempo da antiga URSS. Caiu fora o departamento de propaganda soviética, entrou em cena o ‘marketing’ americano.

O artista responsável pela nova propaganda afirmou que na base do seu trabalho está a “energia sexual” e que os velhos líderes soviéticos eram uma “imagem de juventude, sanidade, intelecto”, indo ao extremo de descrevê-los como “símbolo sexual”. Descrever indivíduos que se encontram publicamente embalsamados como “símbolos sexuais” é um conceito sem dúvida interessante, mas associar a palavra “sanidade” a indivíduos como Lenine e Estaline, cuja repressão brutal causou a morte deliberada de milhões, é esticar a verdade até limites insuportáveis. Mas a verdade já não importa, importa é “dinamizar a marca”.

Limpar e esquecer

É na palavra juventude que se encontra o ónus da questão. Milhões de eleitores já nasceram no período pós-Guerra Fria. Para um indivíduo com 30 anos, URSS, PREC, descolonização, purgas vermelhas, gulags, etc., são tudo termos que pertencem a um velho e bafiento livro de História. E os marxistas tornaram-se especialistas em “limpar” o seu sinistro passado.

No Reino Unido, por exemplo, o maior partido da oposição, que em tempos foi social-democrata, foi tomado de assalto por marxistas que defendem a velha fórmula: nacionalizações, reforma agrária e — implícito numa transformação tão súbita do Estado — repressão política e social dos “ricos e burgueses”. Tal não teria acontecido caso mais de uma centena de milhar de jovens não se tivesse juntado ao partido com o objectivo concreto de o transformar numa organização marxista. Na escola, os jovens nunca aprendem os crimes do comunismo, aliás a revolução de Outubro e a origem da URSS são invariavelmente abordadas de forma quase amigável.

Estaline passa de ser o cruel ditador que deu a ordem directa para eliminar milhões de homens, mulheres e até crianças, para emergir como o simpático líder que venceu uma guerra mundial. Nos novos cartazes até fuma cigarros electrónicos, um óbvio anacronismo, mas que cai bem entre a esquerda das pequenas causas “fracturantes”. Neste caso, o cigarro electrónico é visto como tão importante que uma deputada portuguesa, Isabel Moreira, está disposta a enfrentar o seu próprio governo por causa de uma lei que quer equiparar este tipo de cigarro ao cigarro normal. A mensagem é clara: “Estaline estaria convosco se fosse vivo”, embora quem abra um livro de história sério sabe que o oposto seria quase certo.

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Estaline e Lenine, tal como Fidel Castro e a medonha dinastia Kim da Coreia do Norte, têm em comum um traço hipócrita bem definido: um estilo de vida burguês que os seus súbditos sempre estiveram impedidos de emular. Estaline, por exemplo, era um fã de filmes de ‘cowboys’ que estavam proibidos na URSS por serem oficialmente “um género de filme reaccionário que elogia o extermínio dos índios proletários pelos imperialistas brancos”. Os seus sucessores já adoptaram o espírito dos propagandistas modernos, e deram ordens para fazer uma série de filmes de ‘cowboys’ em que os índios são proto-comunistas e os ‘cowboys’ surgem retratados como representantes do “grande capital”. O objectivo é cativar a juventude, sedenta de filmes de acção, para o comunismo.

Avante, camaradas jovens!

Em Portugal, a grande tentativa do PCP para atrair jovens concentra-se no festival ideológico “Avante!”, que é vendido como uma festa transversal, mas cujo objectivo, mais pérfido, é lavar a imagem histórica da sua ideologia.

O Bloco de Esquerda, por sua vez, está presente em todas as possíveis “causas fracturantes”, disparando e retirando conforme a oportunidade surge, obedecendo sempre à velha máxima do escritor Henry Louis Mencken: “para cada problema complexo existe uma solução simples, clara, e errada”. Este partido é, no entanto, um especialista na campanha dirigida à juventude. Estão presentes em todos os festivais, arraiais e concertos, e comunicam constantemente por via da Internet, onde se encontram os jovens. Debaixo do inócuo título “Bloco de Esquerda”, no entanto, estão a ser limpas dos seus crimes ideologias como o Maoísmo e o Troskysmo. Pior, estas ideologias estão a ser legitimadas como “democráticas” aos olhos de milhares de jovens.

Num cartaz recente do Partido Comunista Russo, Lenine é apresentado de calças de ganga, com um telemóvel na mão; noutro, escreve num computador portátil – símbolos básicos do consumismo americano de hoje, aparelhos que se encontram banidos, ou severamente controlados, em todos os Estados comunistas que ainda sobrevivem. Mas o importante na mensagem é juntar o desejo dos jovens de adquirir estes aparelhos com a ideia de que o comunismo os vai fornecer de graça.pag-11-foto-1

Em Portugal, a fórmula encontra-se a funcionar neste preciso momento em que parece que vivemos segundo PREC. A frente de esquerda garante rendas baixas, ordenados mínimos altos, e ainda quer oferecer mais, e para isso é necessário expropriar os “burgueses” através de mais impostos. Sem qualquer resposta ideológica da parte da direita, a juventude aprova. Já não faltará muito até surgirem cartazes de Álvaro Cunhal no Algarve de prancha de surf na mão, ou de Trotsky em festas no Bairro Alto.

No meio da nova propaganda russa encontra-se um cartaz que é o único que diz alguma verdade. Karl Marx aparece vestido como no filme americano “exterminador implacável” e com a frase “eu vou voltar”. E é verdade, ele está mesmo de volta.