diabo

Numa era em que a identidade nacional parece diluir-se nos “ismos” que pretendem “igualar” e “standardizar” à força, as nossas festas e romarias continuam a fazer a diferença. Tomando como exemplo a multi-centenária Feira da Luz, em Lisboa, O DIABO saúda a Tradição – a simples e nobre arte de continuar a ser Português… 

É uma festividade que remonta à era medieval. A Feira da Luz, realizada todos os anos na freguesia lisboeta de Carnide, nasceu e cresceu em torno da romaria piedosa que há séculos atrai viandantes ao Santuário de Nossa Senhora da Luz, no Largo e Jardim do mesmo nome. À sua sombra ergueram-se dois vizinhos respeitáveis, testemunhas de um culto ancestral e também eles intimamente ligados à História de Portugal: o Colégio Militar, de longos pergaminhos patrióticos, e a Casa-Mãe dos Frades Menores, mais conhecidos por Franciscanos, confessores de Reis, paladinos do espiritualismo popular e missionários sempre presentes nas naus das Descobertas.

O culto da Senhora da Luz teve início em 1463, e logo no ano seguinte começou a realizar-se a Romaria do final do Verão, em Setembro, no termo das colheitas agrícolas. Quinhentos e cinquenta e um anos depois, a Feira continua a Tradição, exactamente no mesmo sítio. Algo mudou no programa das festas, naturalmente: no início, as tendas dos feirantes resumiam-se aos artigos religiosos e aos comes-e-bebes – e passaram durante muitos anos a acolher também feiras de gado. Hoje, a oferta diversificou-se para incluir artesanato, diversões e até… barraquinhas dos partidos políticos!

Os partidos estavam presentes, mas nem todos estavam abertos
Os partidos estavam presentes, mas nem todos estavam abertos

Alguns dos artigos à venda na actual Feira da Luz podem parecer-nos comezinhos ou até mesmo insignificantes – mas tornaram-se objectos de culto por esse mundo fora. O assador de chouriços em forma de porco, por exemplo. Quando O DIABO perguntou a um feirante se ele sabia que assadores como os que oferecia são vendidos por centenas de dólares nos Estados Unidos da América (com frequência através da Internet), a sua reacção foi um misto de descrença e surpresa. E a resposta foi uma piada tipicamente portuguesa: “mas, ó amigo, se quiser eu vendo-lh’os por esse preço”…

Nos EUA produtos destes vendem-se por bastante dinheiro
Nos EUA produtos destes vendem-se por bastante dinheiro

Com os ditos jocosos, o sarcasmo suave e os contos de maldizer fazem parte da tradição coloquial portuguesa, e isso não se vê melhor do que nas placas de azulejo com ditos populares, à venda em profusão na Feira da Luz. Muitas dessas placas com expressões mordazes ou marotas (“as mulheres são anjos e os homens são diabos, mas as mulheres andam sempre à procura de um diabo que as carregue”) são algo aparentemente estranho aos nossos tempos, em que o “politicamente correcto” domina, mas ilustram um sentido de humor que sempre fez parte inteira da nossa consciência nacional.

Azulejos

E, pelos vistos, não se encontra na Luz visitante em contra-sentido: uma rápida sondagem feita pel’O DIABO nas barraquinhas da Feira permitiu concluir os azulejos continuam a vender bem. Entre os mais curiosos dos artigos tradicionais estão os jovens, já pouco habituados ao são convívio com as coisas genuinamente portuguesas. Presença de honra na Feira tem também o emblemático galo de Barcelos, que António Ferro recuperou no Estado Novo a partir de uma velha lenda que a generalidade dos portugueses hoje já não recorda.

Galos de Barcelos

Este ano, em véspera de eleições legislativas, também a política foi à procura do seu lugar junto do povo. Neste aspecto, a Feira da Luz reflecte a conjuntura dos nossos dias: extrema-esquerda super-activa, “bloco central” acomodado. O PCP e o Bloco de Esquerda marcam presença numa incansável campanha de proximidade, tentando espremer todos os votos com as suas promessas de “amanhãs que cantam”, enquanto os grandes partidos se desleixam em barraquinhas fechadas, reservando a militância apenas para os dias de maior afluência.

Enquanto o Bloco tentava (debalde) agitar as massas, O DIABO preferiu visitar uma das muitas barraquinhas onde se vende o “pretinho da sorte”, peça de barro pintada a frio que mostra um negro segurando uma moeda, uma das mais populares figuras entre os frequentadores da Luz.

Pretinho da Sorte

A história do boneco perde-se nos tempos, mas tudo indica remontar ao tempo da abolição da escravatura, no século XVIII. A moeda que o pretinho segura representaria o seu primeiro salário de homem livre – e o curioso ícone asseguraria ao seu detentor um ano de felicidade. Outra tradição celebrada nos objectos à venda na Feira da Luz é muito mais recente, mas não menos popular: o copo de vidro com o nome gravado, muitas vezes acompanhado do emblema de um clube de futebol. Mudam-se os tempos, mas o bairrismo não…

E até mesmo nos elementos de modernidade, as casinhas de prémios com luzes fortes e aparelhagens de som, é possível ouvir o tradicional sotaque alfacinha, em franca extinção, a ecoar e a animar a festa: “Vai sair o ‘skate’? Ou o porco de peluche? Quem não joga, não ganha!”.

Numa época “politicamente correcta” de “interculturalismos” e de hiper-mega-supermercados, numa sociedade cada vez mais “cosmopolitizada”, a Feira da Luz permanece como marca de uma nacionalidade sem tempo, autêntica e leal. Um carácter vincado numa era de unicidade apátrida. A cor de Portugal num mundo cinzento.

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