EVA CABRAL

Tradicionalmente, os socialistas costumam dizer-se laicos – quando não mesmo anti-clericais. Mas como o dinheiro tem muita força, o Executivo de Costa não quer perder as receitas que o centenário das Aparições em Fátima pode alavancar: são esperados 8 milhões de visitantes nas celebrações de 2017.

Mesmo num ano normal, o aniversário das Aparições implica um afluxo turístico considerável, com as correspondentes receitas que lhe estão associadas. Existem mesmo turistas – como muitos filipinos – que aterram em Lisboa e apenas vão a Fátima, continuando viagem, muitas vezes no mesmo dia, para outros pontos da Europa.

Com 2017 e o centenário das Aparições à vista, coube ao ministro-adjunto, Eduardo Cabrita, ir a Fátima assegurar que o Governo, em articulação “com a autarquia, mas também com as instituições da Igreja, dará todo o apoio necessário” para que as comemorações do centenário das Aparições “possam ter o maior brilho possível”.

Refira-se que Marcelo Rebelo de Sousa, após uma visita ao Papa, deixou no ar a ideia de que este virá às celebrações do centenário, sendo um factor acrescido de captação de pessoas e de receitas.

Convertido à Fátima dos negócios, o Governo socialista, apoiado pelos esquerdistas do PCP e do BE, assegura que tem vindo a trabalhar “naquilo que é necessário” em diferentes áreas, como as acessibilidades, a segurança e “a qualidade dos serviços disponíveis para todos aqueles que visitam Fátima”.

Falando na igreja matriz da freguesia de Fátima, concelho de Ourém, Eduardo Cabrita assegurou que a dimensão “do bom acolhimento que todos devem ter em Fátima”, bem como a segurança e a afirmação “da dimensão cultural e do impacto para o País” deste fenómeno não podem ser questões votadas à indiferença por parte do Governo.

Braço dado com o Bispo

As promessas de Eduardo Cabrita foram mesmo mais longe, ou não estivesse ele em Fátima: “Trabalharemos em conjunto, trabalharemos de braço dado com o senhor bispo [de Leiria-Fátima], com o reitor [do Santuário] e com a autarquia naquilo que são as competências próprias de cada quadro institucional referido”, salientou, adiantando que o Governo está a trabalhar “em vários projectos de desenvolvimento” no concelho.

Paulo Fonseca, presidente da Câmara de Ourém, sublinhou que será necessário um envolvimento do Governo para se encontrarem “caminhos e soluções”. Recordou que em 2015 passaram por Fátima 6,7 milhões de visitantes (um acréscimo substancial em relação aos 4,2 milhões de 2008), considerando que a visibilidade mundial desta freguesia “é única”.

“Para o ano, Fátima acolherá oito milhões de visitantes. Não o podemos fazer sozinhos”, disse por seu lado o presidente da Junta de Freguesia de Fátima, Humberto Silva, notando que não é possível “reclamar turismo de qualidade” com vias de acesso “em estado lastimoso”.

Aposta na TV

Em época de comunicação, Fátima não ia ficar fora dos grandes Meios. A televisão ‘online’ TV Fátima quer, até 2017, aliar a arte ao Santuário, criando eventos culturais, peças por artistas plásticos de renome ou uma bolsa de guias voluntários para atrair mais pessoas a este lugar de culto.

“Queremos chegar a todo o mundo através da transmissão das cerimónias religiosas ‘online’, mas sobretudo importar mais pessoas a Fátima e prolongar a sua permanência aqui que, actualmente, é de 1,8 dias”, disse à Imprensa um dos administradores do projecto, Pedro Pinto.

A TV Fátima ambiciona ainda conseguir divulgar a marca “Portugal – Caminhos de Fátima” e proporcionar uma experiência cultural, complementada com a espiritual, aos visitantes do Santuário, explicou aquele administrador.

“Pretendemos criar uma bolsa de voluntários que possam receber as pessoas nas várias entradas do Santuário e dar-lhes a conhecer, por exemplo, quem foi o pedreiro da Capelinha das Aparições, o arquitecto da Basílica, o escultor da Imagem de Nossa Senhora de Fátima ou os artistas plásticos dos painéis cerâmicos da Via Sacra”, salientou.

E realçou: “Além da vertente religiosa, é importante que os visitantes levem uma experiência cultural e fiquem com saudades de voltar ou vontade de ficar mais tempo”. Segundo Pedro Pinto, a televisão ‘online’ é o veículo para divulgar e projectar a marca Fátima, através da qual é possível comprar serviços, tais como mandar rezar missas e colocar flores ou velas.

Venda de Terços

Parte da receita da venda do Terço Comemorativo do Centenário das Aparições de Fátima reverterá a favor de uma instituição do concelho de Ourém, disse a Associação Empresarial de Ourém-Fátima (Aciso). O Terço Comemorativo resultou de uma parceria entre a Aciso, o Santuário de Fátima e a Imprensa Nacional – Casa da Moeda.

Segundo o presidente da Aciso, Francisco Vieira, o objecto foi criado por uma equipa liderada por esta instituição, que incluiu a assessoria do Santuário de Fátima na elaboração de textos e selecção de imagens do seu arquivo fotográfico.

“A produção dos terços será feita manualmente e com recurso aos métodos tradicionais, devidamente enquadrada por fabricantes locais”, informou ainda Francisco Vieira. Cada terço terá um valor de venda ao público de 12 euros. Por cada objecto vendido, um euro reverterá a favor do Centro de Reabilitação e Integração de Fátima, visando a construção de um Lar Residencial para adultos com deficiência.

O terço é composto por contas em vidro soprado, produzidas artesanalmente na Marinha Grande. O passador e o crucifixo são em zamak com acabamento de cobre e prata e a corrente e arame em latão prateado. Cada peça é embalada em caixa própria, acompanhada de um livro explicativo, em sete idiomas, e com Selo de Certificação. Numa primeira fase, serão produzidas 50 mil unidades.

Percurso multimédia

As fachadas das casas dos videntes de Fátima, na vizinha aldeia de Aljustrel, serão o ponto de partida para o percurso imersivo multimédia “A Luz do Anjo”, que vai contar a vida espiritual dos três pastorinhos: Lúcia, Jacinta e Francisco.

O projecto multimédia, que integra o programa oficial do centenário das aparições de Fátima, é constituído por projecções de ‘video mapping’ e inclui ainda os locais das três Aparições do anjo – Poço do Arneiro e Loca do Cabeço – e no monumento dos Valinhos, relatadas pela vidente Lúcia como tendo acontecido em 1916.

“O Santuário de Fátima pretende valorizar a passagem de 100 anos sobre o ano em que a irmã Lúcia coloca as aparições do anjo, que é um episódio muito importante em toda a narrativa que constitui Fátima, considerado pela Igreja como o pórtico das aparições que aconteceram em 1917”, salientou Marco Daniel Duarte, director do Serviço de Estudos do Santuário.

“Esta viagem no tempo ajuda-nos a colocar-nos nessa aldeia (Aljustrel) e a mostrar como a mensagem de Fátima continua muito actual. Aquilo que o santuário procura fazer é valorizar este património, que não é apenas material mas sobretudo um património imaterial”, salientou o responsável.

Até ar enlatado

Também a iniciativa privada não prescinde do seu quinhão nos chorudos negócios de Fátima. Para além da hotelaria e restauração que florescem na zona, a par de casas de vendas de artigos religiosos, há quem tenha pensado – e posto em prática – vender o ar de Fátima.

Apareceu nos noticiários pelo insólito, mas pode ser um negócio a conseguir facturar. O ar abençoado de Fátima já pode assim ir para o outro lado do mundo. É essa a intenção de Sergey Pankovets, um ucraniano a viver em Portugal há 16 anos, que abriu um negócio de enlatar e vender ar.

O de Fátima já está disponível e à venda por três euros cada frasquinho…

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  • PAFioso Usurpado

    A França vai dar uma cabazada em Portugal, o Presidente Marcelo vai
    culpar o Costa e acabar com a geringonça … e eu vou voltar para o meu
    rico poleiro !!