diabo

Não se sabe quem os faz, mas a praça pública está a ser inundada com cartazes que põem a ridículo alguns dos mais destacados políticos nacionais. Ao menos, haja humor…

Começaram por surgir nas redes sociais da internet, mas já chegaram às ruas da capital. São ‘outdoors’ em tudo semelhantes aos originais, com a única diferença de arrasarem pelo ridículo os políticos que neles figuram. A vítima favorita dos “terroristas dos cartazes” tem sido António Costa, que já surgiu retratado como um profeta bíblico a tentar converter os infiéis. Mas o atrevimento dos impagáveis manipuladores de ‘outdoors’ ultrapassou a propaganda para as legislativas de Outubro e iniciou o seu “ataque” às presidenciais de Janeiro do próximo ano. Pacheco Pereira que o diga.

O antigo dirigente do PSD, que hoje se destaca pelos seus tiques esquerdistas em comentários nos Media, é a mais recente vítima. Segundo relatou há dias a SIC, painéis publicitários surgiram em Lisboa e Guimarães mostrando José Pacheco Pereira a empunhar uma espingarda automática Kalashnikov. Ao lado, os dizeres: “O povo não desarma e diz não aos capitalistas. Pacheco a Presidente!”. Ironicamente, a imagem usada no cartaz de falsa propaganda é bem real: foi tirada de um comentário televisivo gravado em 2012 por Pacheco Pereira na SIC-Notícias. Nele, o ex-dirigente social-democrata (hoje entregue aos prazeres intelectuais da sua biblioteca/arquivo na Marmeleira, Rio Maior) referia-se à Kalashnikov como um dos objectos marcantes do século XX – e empunhava um exemplar gentilmente cedido pelo Museu Militar.

Os dias do lixo

O poder simbólico da célebre espingarda soviética só faz sentido no cartaz devido ao passado de Pacheco Pereira, que de resto não anunciou qualquer candidatura à Presidência da República nem se presume que venha a anunciar. Com efeito, antes de aderir ao PSD, em 1988, Pacheco fez um sinuoso percurso político na esquerda: primeiro como militante maoísta, depois como teórico (foi co-fundador do Clube da Esquerda Liberal e da revista “Estudos Sobre o Comunismo”, que dirigiu, publicando ainda vários livros sobre o tema).

Após a sua adesão à social-democracia, Pacheco Pereira foi deputado e líder parlamentar do PSD e deu à estampa três volumes da sua extensa biografia de Álvaro Cunhal. Com a ascensão de Santana Lopes a primeiro-ministro, Pacheco Pereira iniciou um afastamento gradual do PSD até abandonar qualquer cargo de responsabilidade, em 2011. Dois anos depois de Passos Coelho ter subido ao poder, publicou uma recolha de textos políticos a que, sintomaticamente, deu o título “Crónicas dos Dias do Lixo”. O tom esquerdista dos seus comentários mais recentes leva a supor que Pacheco Pereira empreendeu um regresso ideológico às origens – algo que o cartaz pretende obviamente satirizar.

Comentando o aparecimento do ‘outdoor’ (que considerou “um caso raro de propaganda negra”), Pacheco apenas afirmou: “Será interessante saber quem o fez, quem o pagou e quem o colocou. Espero que não tenha sido com dinheiro dos contribuintes, directa ou indirectamente”…

Amanhãs que cantam

Mas o “bombo da festa” na guerra dos cartazes tem sido o actual secretário-geral do PS, António Costa. Sobretudo nas redes sociais da internet. Aí, o ‘outdoor’ lançado pelos socialistas como “âncora” da campanha eleitoral para as legislativas tem sofrido tratos de polé. Aliás, a própria versão original do PS está a sofrer fortes críticas de vários sectores socialistas.

Trata-se do cartaz “É tempo de confiança”, que já se encontra visível em muitas localidades de todo o País. Na imagem, uma jovem afasta um

céu cinzento e brumoso (alegoria socialista para o actual Governo) e faz brilhar um céu em que a luz dourada do Sol promete a felicidade (António Costa, “a alternativa”, claro).

Este ‘outdoor’ dos socialistas começou a ser distribuído num momento particularmente difícil para António Costa, quando foram conhecidas as listas de candidatos do PS à Assembleia da República. Com o partido afastado do poder, os lugares em S. Bento são dos poucos “rebuçados” com que o líder pode acenar às centenas de políticos socialistas profissionais – daí a delicadeza da escolha das listas.

Assim, ao mesmo tempo que aparecia nos cartazes prometendo “amanhãs que cantam”, António Costa deixava fora das listas (ou em lugar inelegível) um número considerável de potenciais candidatos. Houve “motins” no Porto e em Coimbra. E em importantes redutos políticos, como Leiria ou o Barreiro, os dirigentes locais afastados (muitos deles apoiantes de António José Seguro) suspenderam mandatos ou demitiram-se. A demissão foi também o caminho escolhido por Isabel Coutinho, presidente do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas, e por Rui Paulo Figueiredo, líder do PS na Assembleia Municipal de Lisboa.

Reino de Deus

No Barreiro, os vereadores socialistas Luís Ferreira e Marcelo Moniz suspenderam os seus mandatos até à realização das eleições – afastando-se assim de qualquer participação na campanha eleitoral. Embora tenham invocado “razões pessoais”, é convicção geral que os dois socialistas mais votados no populoso concelho pretendem com a sua decisão marcar um protesto pelo afastamento dos opositores à actual direcção do PS das listas de candidatos.

Nem de propósito, há dias, Mar- celo Moniz escrevia na sua conta pessoal do Facebook que o cartaz do PS “É tempo de confiança” faz lembrar a publicidade à IURD, a Igreja Universal do Reino de Deus. E não é que faz mesmo?

O próprio António Costa, depois de ter aprovado o cartaz (da autoria do polémico publicitário brasileiro Edson Ataíde), terá caído em si e reconhecido – segundo o ‘Diário de Notícias’ – a “eficácia duvidosa” da publicidade “tipo IURD”. E diz-se nos ‘mentideros’ que a cabeça de Ataíde pode rolar a qualquer momento…

A imagem “messiânica” do controverso ‘outdoor’ serviu imediatamente de inspiração aos “terroristas dos cartazes”, que puseram a circular na internet uma versão jocosa: nela, Costa surge de trajes bíblicos e sandálias de profeta a arengar aos incréus. Noutra versão, ainda mais letal, a jovem do ‘outdoor’ faz descobrir a cara de José Sócrates. A última que António Costa quereria ver anunciada, por todo o País, como símbolo da “alternativa de confiança”.

O humor pode ser mortal.

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